observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

domingo, dezembro 26, 2004

África colonial e pós-colonial em exposição



A mostra "Colecções de África - Etnografia/ Arte Contemporânea"



Vai estar patente ao público até 30 de Dezembro, no Centro Cultural de Lagos. A exposição apresenta duas colecções africanas: a colecção de etnografia colonial do Museu Municipal de Lagos, construída durante os anos 30-70 do século XX; a colecção de artistas contemporâneos de África da Caixa Geral de Depósitos, iniciada nos anos 90; e ainda uma instalação inédita do artista Manuel Santos Maia a partir de objectos da colecção colonial.

O objectivo da exposição "Colecções de África" , comissariada pela antropóloga Eglantina Monteiro, e que ocupa os três espaços expositivos do Centro Cultural, é mostrar duas imagens de África, construídas em períodos históricos diferentes - colonial e pós-colonial. A mostra pode ser visitada de segunda-feira a sexta-feira, entre as 10:00 horas e as 20:00 horas.

Diário on-line Algarve

O Natal?
Sim! Como motivo de reencontro familiar,como repetição de gestos milenares que consolidam os afectos familiares.
O resto do Natal?
São os papeis coloridos e as respectivas fitas douradas que jazem nos lixos do ocidente "civilizado"!



fernando gregorio

Irlanda.

James Joyce “Bloom'sday”.



Canta ilha encantada,
porque chove nas ruas de Donegal,
porque as estradas vão para o céu,
sem pedir licença a ninguém

porque os marinheiros assim o querem,
sem pedir licença a ninguém

porque os teus campos são como harpas ébrias,
porque as falésias de Moher assim o desejam,
sem pedir licença a ninguém

porque as estrelas brilham sobre a calçada,
porque os teus campos são como corpos,
sem pedir licença a ninguém,

e esses cem anos são como colinas
e essas colinas soam melancólicas
como aquele candeeiro junto ao "Temple Bar",
Denunciando a sombra de Mr. Bloom
a caminho de um funeral,
bem regado a Guiness no final!!

"Oh !!...such a nice corps, such a good pint of beer…… !"
e a seguir todos cantam, sem pedir licença a ninguém.

Fernando Gregório

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Poema de Tolentino de Mendonça para o postal de Boas Festas
da Assírio & Alvim.





Uma história que se exprime tão deliciosamente. As estrelas
de papel esplendem; os pequenos ramos colhidos aproxi-
mam da casa os bosques longínquos; os frutos, sem dúvida
dos melhores, envolvem em perfume o interior e o exterior;
a imagem diz sem desfazer o segredo.

A terra atravessa, neste momento, o solstício de Inverno.


link http://www.assirio.pt

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Santana, continua imparável no que trata,à construção de metáforas hospitalares.
Depois da incubadora, vem agora a brilhante metáfora da ambulância que transporta "um doentinho",(o país) e que é atacada a tiro pelos média e pela oposição.
Embevecedora a imagem;o país a sangrar na maca, e os "maus"aos tiros contra a ambulância, e o enérgico condutor (ele mesmo,o Santana),ziguezagueando pela avenida para salvar o coitadinho! (ainda existem heróis!)

Sugestão para a próxima metáfora;
- O país muito doentinho,a soro,(coitadinho!) e depois lá vem o "lobo mau",e em vez de comer a avó, injecta estricnina no soro do doentinho (o país). Enternecedor, não acham? O que o filho da puta do lobo mau não é capaz de fazer!?
Santana devia de aproveitar esta pequena contribuição de um amigo dos doentinhos e das crianças espancadas à nascença!!

f gregorio
As palavras pretendiam confinar o corpo
onde as mãos se alongavam demandando
a área propícia ao desejo,
no entanto tanto o corpo como o desejo
eram cruelmente sitiados pelo tempo,
as palavras tornaram-se inúteis, pois tudo
o que era visível fora invadido pelo tempo.
Era como uma ferida incompleta
que destroçasse a existência




Fernando Gregorio

O post seguinte, foi retirado do site brasileiro http://www.digestivocultural.com/

Este texto,integra-se na perfeição na corrente filosófica "os observadores de formigas"(a ler e a pensar). fernando greg.


A ponte para as formigas Andréa Trompczynski


Um dependente químico ou adicto é um doente muito antes de usar qualquer droga. As primeiras que experimenta são os próprios sentimentos. Embriaga-se de autopiedade ou ilusões de superioridade já na infância, culpando outros e o mundo por suas dores. Usar alguma substância conhecida como "droga" é consequência natural. Parar com elas, depois de anos de inferno para si e sua família, é um passo. Parar de intoxicar-se com sentimentos doentes, esse sim, o problemão. Serei piegas e provavelmente emocional, já aviso, porque criticar escritores que não conheço, falhas alheias e ver à distância a pimenta ardendo no olho dos outros é moleza.




Faço aqui um mea-culpa, porque eu também tenho um passado escabroso. Meu início foi como o da maioria dos dependentes. Álcool, inalantes aos quinze anos, anfetaminas (na minha época eram Hipofagin e Inibex). Promessas de "nunca usarei tal droga" sempre quebradas, um avanço lento mas progressivo em quantidade e potência. Meu organismo possuía uma capacidade que me parecia infinita em suportar drogas. Enquanto muitos dos meus amigos estavam já "caindo", eu podia virar as noites sem problemas. Possuía um imã para atrair amizades de outros que usavam também. Achávamos o máximo nosso comportamento. Os bam-bam-bans da cidade.




Em casa, percebiam alguns porres, meus pais davam algumas broncas e achavam que era um comportamento normal de aborrescente que eu era. Mas tudo ficou mais fácil quando fui estudar em outra cidade (ah... a capital...), fazer o terceirão e depois algum tempo de Ciências Biológicas na PUC-PR. Aulas, nem pensar. Conheci a turminha dos "loucos" e estava no paraíso. Chega a ser engraçado lembrar que líamos Castañeda, poesias do Jim Morrison e acreditávamos ser especiais. Na faculdade, comecei a deixar de lado os amigos. Preferia ficar sozinha, afundando em crises de angústia fabricada nas quais eu chafurdava, num exercício de masoquismo que até hoje não consigo entender. Então, começaram a aparecer as famosas crises de abstinência. Tremores, muitas vezes pequenas convulsões, isto quase que só pelo álcool, que era minha droga favorita e a mais acessível. Oito da manhã eu já estava saindo de casa para tentar achar algum lugar aberto onde eu pudesse comprar. Sabia que era alcoólatra e inclusive contava isso para o dono do bar, explicando assim porque é que eu estava lá "tão cedo". É que sou alcoólatra, sabe? Alcoólatras bebem de manhã. Eu aceitava minha condição e a usava como desculpa. Passaram-se alguns anos, abandonei o curso, voltei para a casa dos meus pais, parei por um tempo, casei, tive um filho, nos separamos, voltei a usar. Era cômodo.




Meu filho e eu morávamos com meus pais e eles estavam assumindo a responsabilidade. Bom para mim. Havia uma droga que para mim era o cúmulo do horror, da decadência: o crack. Óbvio, foi a próxima a ser usada. Como eu disse antes, todas aquelas que dizemos, nós adictos, que nunca usaremos, serão as próximas. Meu Deus, que choque. Era muito bom. Eram cerca de dois minutos de efeito, mas que era aquilo? Não voltava mais para casa, gastava tudo o que eu tinha e o que não tinha. Nunca, em toda minha vida, tendo usado até mesmo cocaína e heroína injetáveis, experimentei uma compulsão tão violenta quanto a causada pelo crack. Há pessoas vivendo na rua que trocaram tudo pela pedra, família, filhos, casa, empregos, tudo. Vivem como zumbis, e, lembro-me, qualquer segundo de culpa ou arrependimento precisa ser anestesiado imediatamente, porque voltar é muito mais difícil do que continuar usando. Foram apenas alguns meses, mas destruíram muito mais do que dez anos de alcoolismo.





No dia da maior crise de culpa, abstinência e dor que tive, contei tudo à minha família: pai, eu não sei mais o que é real e o que não é. Fomos procurar ajuda. Passei uma semana desintoxicando em uma clínica psiquiátrica. É preciso. Os primeiros dias precisam de um acompanhamento especial: convulsões, compulsões e, principalmente, o meu maior terror, os pesadelos com quantidades imensas da droga, são impossíveis de suportar sozinho. Depois, fui para uma comunidade terapêutica em Santa Catarina. Foram seis meses. Sim, metade de um ano, e para muitos é pouco, acabam ficando mais tempo. Por quê? Porque é impossível parar continuando a viver no meio em que se vivia antes, continuando a ter as mesmas companhias, andando pelas mesmas ruas e, o mais complicado, pensando da mesma maneira. Aprendi muito. Eu tinha um imenso preconceito com a própria dependência química. Com a idéia de pedir ajuda.




Todos os sentimentos eram, para mim, hipócritas e as pessoas apenas desfilavam vestindo um verniz social. Que descobri não ser verdade. Eles eram reais. Choravam quando sofriam, riam quando estavam felizes. Estavam "limpos" há anos e tinham recuperado algo que foi o meu maior desafio: sentir-se humano novamente. Confiar em alguém. Rir de uma piada. Era como se eu tivesse perdido a alma e precisasse reconstruí-la do nada. Eu nem sabia quais eram as músicas que eu gostava ou minha comida favorita. Afinal, nem comia... Meus melindres dominavam em minha primeira reunião de Narcóticos Anônimos. Abriram com uma oração: "Deus, conceda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que eu posso e sabedoria para reconhecer a diferença", eu quase pulando da cadeira pensando "onde é que vim parar, um bando de fanáticos!". Não eram. Eles eram normais, trabalhavam, estudavam, muitos pareciam intelectualmente interessantíssimos e estavam ali num círculo dando as mãos e dizendo que só por hoje funciona. "Baixar a crista", como diziam os coordenadores, era o mais difícil. Perceber-se nada melhor do que ninguém ali, que minha adicção não era mais bonita por não ter passado pela favela ou por problemas na rua. Ouvir com humildade pessoas que dão o exemplo, aprender a ouvir o outro, pois o adicto é um egocêntrico que não dialoga, monologa.



Uma conversa é apenas pretexto para ele deliciar-se com suas próprias opiniões. Um valor comum como a verdade, para um dependente químico é sinônimo de medo. Verdade significa ser descoberto. Por mais que todos soubessem –e todos sabiam– eu continuava mentindo para acobertar o que estava acontecendo. Vigiar meus pensamentos, na prática, é muito mais difícil do que eu pensava, pois minha mente insiste em mentir para mim mesma, argumentando que não era tão mal assim. Que não era tão grande a quantidade de drogas que eu usava, que aquele tombo na rua, em plena luz do dia, nem tinha sido notado. Fui percebendo por esse e outros grupos de ajuda que conheci, que eu é que estava errada, claro para muitos, mas dentro dos quebra-cabeças cerebrais que eu construí para viver, o mundo era o das minhas regras e eu tinha todos os direitos. As pessoas não viviam assim, a vida corria em uma estrada que eu não conhecia, e não era aquela dos meus delírios. Se eu quisesse que meu filho me amasse, eu precisava estar com ele, assistir Scooby-Doo no sofá com ele e não ficar em minha cama, de ressaca, pensando em que maravilhosa mãe eu seria no futuro. Um filme em que eu era a atriz principal e que ele nunca via. Não há cura. Posso estagnar a doença, cuidando de não envenenar-me com sentimentos tortos. Muito da minha vida social morreu porque descobri que, estranho, não gostava de dançar ou de festas. Daquele monte de amigos sobraram dois. Continuo, parece-me uma espécie de "teste", atraindo pessoas dependentes, que sempre acabam oferecendo-me (não somente drogas, mas também os tais sentimentos que me fazem mal) e, pior, em horas difíceis. Tenho medo e vergonha muitas vezes, ao encontrar pessoas que conheceram esse passado, não importa quanto tempo faça. Faço um esforço tremendo para não abaixar a cabeça. Mas, como alguém poderia se orgulhar de algo assim? Eu não me orgulho.


Em muitos momentos sinto-me mais perto do inferno (afinal lá eu conheço todos os becos, ruas, atalhos e os demônios pelo apelido de infância) que do céu, por estar obrigada a conhecer a mim mesma para não morrer.



Foi num desses dias perdidos que um enviado dos deuses mostrou-me a única e infalível terapia: As Pontes Para Formigas. Precisamos aqui de um quintal depois da chuva. Aquele cheiro da terra molhada é estritamente necessário. Parte importantíssima é um menino de seis anos, que será o seu guia na dificílima tarefa de construir pontes para formigas, a nossa terapia de sucesso. Ele lhe mostra como a chuva fez valas que ficaram úmidas e as formigas já não podem passar. Espalha uns farelinhos de bolacha Maizena nas duas margens da vala – que, explica o pequeno mestre, elas adoram. Pede que você ponha um palito atravessado como uma ponte por cima da valinha que dará então acesso ao formigueiro. Imprescindível que seja um palito de picolé de leite condensado comprado do garoto que passou tocando flautinha no dia anterior, chamado respeitosamente de O Picolezeiro –um tipo de intermediário místico– ou não funcionará. Sente-se e observe. Sua iluminação pode demorar um pouco. Elas se comunicarão, diz o menino, na língua das formigas, avisando umas às outras que há comida e acesso ao formigueiro novamente. E, se você prestar muita atenção, vai ver uma delas olhando para os gigantes incompreensíveis com gratidão de formiga (este estágio não consegui atingir pela enorme distância evolutiva entre o guia e eu, acho). Demoram um pouco para se adaptar às mudanças ocorridas, mas conseguem. Em silêncio você compreenderá tudo o que se perguntou a vida toda e buscou em tantos lugares diferentes, nunca encontrando.Era tão simples. Perdi tanto tempo, o menino e as formigas estiveram sempre ali.

Andréa TrompczynskiSão Mateus do Sul, 22/11/2004

Estrada-POST, futurista


A narcose da viagem segura a minha mão com uma notável indiscrição........... com um saco na outra mão, ………espero um qualquer carro à beira da estrada,……sem conhecer claramente o meu destino…..
estou em Lyon na estrada para Valence (França,) espero os prováveis 40 Km que se estendem à minha frente,…….. ………..pára um alemão, pergunta-me com sotaque, “Valênzia…., Ezpagne….? ………..são só mais 1200 Km…trata-se de um equivoco …….,não penso,….. rapidamente subo para a viatura,……esqueço o equivoco,….. pergunto-me:”e como será Valência?”…..e aí está o asfalto desfilando,……e o que fica para trás………………. ,é como uma 2ª vida percorrida num saboroso vazio,……………num hipnotismo de funambulo que despreza o fio de arame debaixo dos pés,…..a velocidade, ……………….e.o silêncio do condutor,……..numa cumplicidade que dispensa as palavras,………o ronrronar tranquilo do motor,……..uma música de aço,… sobre a partitura negra da estrada,………………paragens em estações de serviço………, que não pertencem aos mapas,…….que são propriedade de uma transumância,………..de um jogo de corre corre a adiar a vida,…..só pela velocidade,………só pela estrada,………só pela estrada,….qual a cidade seguinte? ……………….que importa!........... é só mais uma, como todas as outras,…..como a anterior……………………como a inicial, como a final……. tal como a morte e o nascimento…….. ligados pelo sólido cordão umbilical do asfalto……………………a fuga cega……….a fuga muda…………..a fuga ditada pelo silêncio dos humanos e pela mecânica que os transporta………… a viagem, sim a….viagem!!................... ………………….excelsa droga……………..fugindo da sua própria sombra,…………..até onde?......até onde!?.............não perguntes, não interessa, pois a viagem não é um meio…………a viagem vive, per si, a viagem é o fim em si…..dispensando a qualidade dos meios……………a viagem é a viagem…………sim………é pois isso mesmo!!….tabuletas estranhas,…….. indicações como códigos de morse…procurando naufragos…….. num deserto povoado de desejo…….na sua qualidade……… mecânica……………………..uma dança de dizeres…………………,e de semáforos como bailarinos inúteis…… dançando a sua única dança possível ……perto das portas sedentárias,………………e elegantes jogos de luzes pela noite fora, …….jogos de sonhos,................e cruzamentos de desejos…....com colossos com a forma de camiões, Viena/Turim/Génova/Barcelona/Budapeste…TIR/TIR/TIR/,o sangue das máquinas e das cidades……o alimento das bolsas e dos mercados…… para onde……..como!?....não importa, não são jogos de palavras o meu destino,…..é a distância que conta ……a fuga no espaço circulante,…e a indecisão anterior ou posterior às urbes………o espaço de uma interrogação no remoto, os horizontes insuspeitos………e talvez as cidades….com interrogações em forma de viadutos……..onde encontrarei um oriente ou um norte….ou um espaço ou um sul de sentimentos absolutos e………….de verdades inesperadas….que serão seguramente……… negadas pela seguinte cidade………..



Fernando Gregório

Felipe Benítez Reyes

LAS NIÑAS

Llegan con los tacones sucios del barro de los parques,

con un perfume espeso de flores venenosas.

Llegan con gafas negras, radiantes, despeinadas;

la noche las recubre con un palio morado.

Toman licores densos con aires de tragedia.

Tienen nombres de diosa, de colonia o de gato.

No son invulnerables a las historias tristes

y huyen de madrugada, como lunas esquivas.


belissímo................não é?.............. fgreg
Os "novos poetas andaluzes de agora",estão vivos e de muito boa saúde,continuarão a escrever (inch`allá),para nosso grande prazer (à excepção de alguns editores de poesia que vivem de bom gosto a leste do paraíso e que pensam que a poesia española,acabou em Machado,Lorca.......com uma concessões a Panero e pouco mais).


Aqui, um exemplo;

Felipe Benítez Reyes (Cádiz)


LA PALABRA


La mano que reposa en la mano de amante,
jugando con la joya de algún aniversario.
Los tacones rojos de una puta vestida de rojo
por el pasillo de un hotel de alfombras rojas.

La adolescente que se pone los calcetines escoceses
en un almacén de bebidas,
sentada sobre un fardo de cartones,
mirando su reloj,
contando unos billetes.

El jubilado que vuelve
a casa con un ramo
de rosas sin abrir -y medio siglo
vivido ya- con esa vieja
que cocina sin sal y apenas habla.

El cliente del peep-show, mirando
a través del cristal de la cabina
-como un caleidoscopio de quimeras y bragas
-el girar de unos cuerpos que sonríen.

El muchacho que entra en el bar de ambiente
con ojos de gacela lastimada.

El viajero que besa la foto familiar.
El viajero que desliza
por el mostrador la tarjeta
de crédito y se pierde
con la muchacha elegida por el laberinto
de los reservados
bajo las luces especiales
de un reino de peluche.

El que pronuncia un nombre, y no se duerme,
y abraza la almohada,
Los colegiales que se besan
en los jardines del internado.

La separada joven que mira el teléfono,
rogándole que suene.

El señor atildado que detiene su coche en una esquina
y cierra un trato
con el chapero de las zapatillas de deporte.

El niño que busca el cuarto oscuro
para quedarse a solas con la gélida
imagen de una modelo de revistas de moda.

Contra nosotros mismos: lo que llamamos amor.
Y cada cual pronuncia esa palabra
con un secreto temor y una secreta demencia.


quarta-feira, dezembro 22, 2004

O Conto seguinte foi retirado do site http://www.bestiario.com.br
Óbito 75.888
de Ronaldo Cagiano
(À moda de Mauro Pinheiro)
Para Moacyr Scliar
Naquela segunda-feira em que não compareceu à repartição, ninguém deu por conta. Era sempre assim: uma depressão de fim-de-semana, um acometimento hepático pós-feriado, um incômodo psicológico, uma simples não-vontade de ir trabalhar... E não aparecia, pronto.
Corta o ponto, Vicente...
Mais uma vez, ninguém ligou. Nem tocou o telefone de sua casa. Sobradinho, a mais aprazível cidade do cerrado, era ali mesmo, quase um pulo. Mas ele devia estar cansado e não desceu a serra para, ao menos, assinar o ponto, como muitos faziam nas repartições naquela época sinecurosa e de vacas gordas sob a ditadura.
O chefe da seção de engenharia do Ministério também não chamou para sua casa, como nas primeiras ausências. Deve ser mais uma das dele. Só pega no tranco.
Não chovia nem fazia sol para os lados da Asa Norte. Apenas as cigarras de agosto e a névoa seca de um tempo de estiagem a penalizar o cerrado do Planalto Central. Vir ao Plano Piloto? Nem pensar. Poderia ser surpreendido por um colega de trabalho, como daquela vez em que tirou licença médica e foi visto antes do meio-dia saindo de um boteco no Conic, tradicional centro de escritórios e variegado comércio popular, que à noite dá lugar aos “inferninhos” e assume seu lado “underground”. Melhor ficar em casa, vendo a tevê em preto e branco ou voltar-se aos livros de sempre: Hamlet, Guerra e Paz, Um homem sem qualidades, Tolstoi, O Aleph, Carta à noiva, Coreografia dos danados, ainda um Rosa, um Bandeira, um Becket, um Lobato, de quem, sobretudo, gostava. Nem havia times de futebol em Brasília que justificassem sua torcida. Desconfio: ele detestava futebol, Paulo Coelho, os best sellers americanos e a travestida pseudomúsica sertaneja (com seu lirismo vulgar e padronizado). Em campo, preocupações apenas com a campanha que prenunciava Tancredo Neves na disputa do Colégio Eleitoral que, para os radicais da esquerda que só aceitavam as Diretas Já, era uma saída conservadora, para mitigar a pressão popular.
Na estante, com um dos pés quebrados sustentado num tijolo: uma vitrola Phillips; antigos vinis empoeirados de música clássica e jazz; num quadro com o vidro trincado, uma foto desbotada com soldados sobre tanques na Primavera de Praga; a receita de óculos amarelecida sob uma penca de chaves; sobre um pires de porcelana rachado, a vela Cristal usada até a metade; uma carta num envelope de Ituiutaba, com as iniciais LV do remetente; a cartela de Lexotan – companheiro de seus últimos anos. Poeira e cansaço nas paredes. Insularidade que se constata a cada passo.
Naquela semana, os jornais falavam, além das notícias das alianças políticas para pôr fim ao governo militar, de obviedades. E dias antes alguém o viu de bermuda, as barbas grisalhas mal cortadas, com suas havaianas, uma gaiola na mão, em plena via pública, quando foi surpreendido por um transeunte.
- “Vou pegar rato judeu”.
Na terça-feira, não compareceu a uma reunião com um grupo de historiadores que estava realizando um estudo sobre a época da construção da Nova Capital, e queriam arrancar dele algo sobre o rumoroso massacre da Pacheco Fernandes, num canteiro de obras, ele que viera, juntamente com Joaquim Cardozo, integrar a equipe de Niemeyer, e acabou responsável pelo cálculo estrutural do edifício do Congresso Nacional. Mais uma furada do velho, resmungou seu editor, aquele português sob impagáveis lentes fundo de garrafa.
Deve ser a enxaqueca ou está de novo de mal com a vida, completou o agente administrativo, que, costumeiramente, enchia a garrafa de água que ele levava para casa depois do expediente. Na quarta, nada. Na quinta, o chefe com a pulga atrás da orelha, ele nunca ficou tantos dias sem vir, sem dar satisfação, tocou, tocou, tocou mais no fim do dia, insistentemente, até cair a ligação.
Amanhã você passa lá, Natalino, traz o homem de qualquer jeito, disse ao bedel da tarde.
Na sexta, bem cedo, o garoto que entregava o leite nas casas das quadras 2 e 3, estranhou os embrulhos de pão acumulados na varanda, cisco e folhas secas espalhadas na porta da entrada, um mau cheiro a lembrar animal morto, uns urubus circunavegando sobre o telhado, a silhueta do cão Beethoven, angustiado, com suas patinhas fazendo barulho no vidro da janela fechada de um dos quartos. Na porta da sala, um estranho balé de moscas buscando uma brecha para entrar, contas de luz, telefone e correspondências entupindo a caixa de coleta enrustida no muro.
Dona Judite, a costureira da casa em frente, já havia telefonado para a administração regional, para o Corpo de Bombeiros e reclamara à Polícia, dois dias antes, do mau cheiro. Deve ser a fossa, ele nunca chama o caminhão pra esvaziar, ouviu da outra vizinha. Telefonar, não telefonou. Atender, nem uma vez. A última em que foi visto, era sábado, tinha ido ao comércio: foi comprar os jornais na banca do italiano e aproveitou para vender a preço de banana um quadro de Di Carrara, O corcunda de São José dos Campos: precisava de dinheiro e sua casa já estava quase sem nada. Voltou trazendo uma garrafa de plástico com água mineral Minalba, pela metade. E foi dona Sebastiana, a mudinha peregrina e solícita, que abriu o portão e contemplou aquela estranheza nos seus olhos, um silêncio de despedida. Viu-o entrar pela última vez. E uma nuvem espessa sobre sua cabeça. Antes de bater a porta, olhou-a com uma ternura imprevista. E foi só.
Já fazia uma semana que ele não dava as caras.
O repórter do Correio Braziliense tentou ligar, para arrancar-lhe uma entrevista, embora soubesse de antemão ser ele um contraponto dos arruídos literários, a misantropia em pessoa. Preferiu arriscar, ir lá: queria um depoimento sobre a morte de um famoso escritor americano. Deu com os funcionários do IML retirando o corpo em adiantado estado de putrefação. Haviam-no encontrado com a cabeça dentro de um prato de sopa Knorr, a Telefunken ligada, mas "chuviscando", a luz esquálida de um abajur projetando a silhueta dos móveis e objetos e uma assembléia de varejeiras rondando a sala em sua solidão mineral.
A tarde liquefeita num crepúsculo sangrento no horizonte da cidade satélite encerrou o mistério de muitos dias, dias em que, cadeira vazia e mesa cheia de papéis, ele despediu-se sem aperto de mãos. Uma colega de trabalho mexeu nas suas gavetas e garimpou algo rabiscado numa folha solta: “Tenho grandes frustrações e decepções, e grandes euforias. Amo e odeio apaixonadamente. Uma vida intensa, difícil, saborosa. Acho a vida uma grande aventura. Espero que os idiotas me compreendam.” Dias em que, em algum lugar do mundo alguém teria lido os contos do imigrante, ou não conheceu os sete sonhos entre tantos devaneios de um solitário aprendiz da ironia. O errante personagem de si mesmo acabara de ganhar vida contra a inércia letal do mundo. E libertou-se para sempre da alma fatigada.
No outro dia, fui ler os jornais. O obituário do dia 26 de agosto de 1984 foi totalmente dedicado a Truman Capote.
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P.S. Este conto, se tanto não fosse, ainda assim, é uma homenagem a Samuel Rawet.( ¹)

( ¹) Um dos maiores escritores brasileiros, Samuel Rawet era judeu polonês, nascido em Klimontow, em 23.7.29, tendo imigrado para o Brasil em 1936, vivendo no Rio e grande parte de sua vida em Brasília, para onde foi, durante a construção da cidade, para integrar a equipe de Niemeyer, juntamente com outro escritor, Joaquim Cardozo que, como ele, era engenheiro. Entre suas obras, destacam-se: Contos do imigrante (1956), Diálogo (1963), Abama (1964), Os sete sonhos (1967), O terreno de uma polegada quadrada (1969), Alienação e realidade (1970). Eu, tu e ele (1972), Que os mortos enterrem seus mortos (1983). Nos últimos anos de sua vida, profundamente deprimido e desiludido, isolou-se em Sobradinho, uma cidade do Distrito Federal. Lá faleceu, solitário e sem assistência. Com uma narrativa visceralmente ligada aos problemas existenciais, seus personagens refletem um ambiente de incomunicabilidade e solidão. Rawet rompeu solenemente com o judaísmo, e assim justificava sua atitude:









“Não, não sou anti-semita, porque semitismo não significa necessariamente judaísmo, sou anti-judeu, o que é bem diferente, porque judeu significa para mim o que há de mais baixo, mais sórdido, mais criminoso, no comportamento deste animal de duas patas que anda na vertical. Não vou pedir desculpas pela linguagem vulgar. O meu vocabulário é o do carioca, e com pilantras é impossível, e inadequado, literária e estilisticamente, o emprego de vocabulário mais refinado. Quero pedir a essa meia dúzia de oito ou nove, ou quatro ou cinco, de judeus ou parceiros de judeus em suas transas marginais, que vivem me aporrinhando por aí, que desinfetem”.








RONALDO CAGIANO nasceu em Cataguases-MG, em 15.4.61 e vive em Brasília desde 1979, onde formou-se em Direito. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários.. Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas publicados na revista CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de contos "Dezembro indigesto" , recém publicado. Publicou: Palavra Engajada (poesia, SP, 1989), Colheita Amarga & Outras Angústias (poesia, SP, 1990), Exílio (poesia, SP, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília, 1994), O Prazer da Leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Ed. Thesausus, Brasília1997), Prismas - Literatura e Outros Temas (crítica literária, Ed. Thesaurus, Brasília, 1997), Canção dentro da noite (poesia, Ed. Thesaurus, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu (infanto-juvenil, em parceria com Joilson Portocalvo, Ed. Thesaurus, Brasília, 2000), Poetas mineiros em Brasília (Ed. Varanda, 2001, Brasília - organizador), Dezembro indigesto (Contos, Sec. Cultura/DF, 2001), Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, 2004, organizador).


Conto de Nelson Oliveira

retirado do site http://www.bestiario.com.br


Rawet, o solitário caminhante do mundo


Tudo o que há de absurdo no mundo concreto encontra logo um ponto de referência: o sonho. O encadeamento de imagens dessa experiência alucinatória é a metáfora mais antiga que existe para a aleatória sucessão de eventos do cotidiano. Do sonho para a psicanálise: um salto. Apropriando-me da fórmula psicanalítica, diria que a obra de Samuel Rawet é a realização de desejos inconscientes, feita de conteúdos ocultos e inaceitáveis até mesmo para o próprio autor. Isso explicaria a alta velocidade de seu discurso, o hermetismo raivoso de alguns símbolos, o entrechoque de crenças díspares e as diversas ambigüidades — étnica, sexual, profissional — em torno das quais este entrechoque não pára de girar.
Samuel Urys Rawet nasceu em 1929, em Klimontow, aldeia de judeus poloneses. Veio para o Brasil em 1936, aos sete anos, e até os vinte morou no bairro de Leopoldina, no Rio de Janeiro. Apesar do forte interesse por literatura, só começou a escrever na faculdade, na Escola Nacional de Engenharia. Em 1956, quando a José Olympio publicou os Contos do imigrante, Rawet já havia escrito dezenas de peças de teatro, e destruído praticamente todas. Como engenheiro, trabalhou com a equipe de Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Lúcio Costa, na construção de Brasília. Os livros que se seguiram ao primeiro — Diálogo (contos, 1963), Abama (novela, 1964) e Os sete sonhos (contos, 1967) — tiveram editor, mas a partir de 1969 Rawet foi obrigado a publicar do próprio bolso. Assim foi com O terreno de uma polegada quadrada (contos, 1969), Alienação e realidade (ensaios, 1970) e Eu-Tu-Ele (ensaios, 1972), todos de ensaios. Os últimos anos de vida foram os mais solitários, devido ao seu excessivo retraimento, à mania de perseguição e aos constantes conflitos com sua origem judáica. Não se casou, não teve filhos. No final da vida, isolou-se por completo do mundo social. Gostava de percorrer a pé as superquadras de Brasília, hábito que lhe valeu o apelido de o solitário caminhante do planalto. Em 1984, foi encontrado morto na sala de sua casa, vítima de um aneurisma cerebral.
Na minha opinião, o melhor livro de contos de Rawet é Os sete sonhos, sendo este conto especificamente, ao lado de Fé de ofício e Kelevim, os de que mais gosto. Os sete sonhos narra sucessivos saltos, de um plano onírico a outro, dentro de um mesmo e contínuo sono: uma urgente viagem de regresso ao primeiro sonho. No início encontramos o protagonista sentado numa poltrona de vime, observando um moinho movido à água, dentro de uma paisagem ensolarada. A cena é descrita com a precisão de um estrategista e o rigor de um matemático, o que torna inevitável a conclusão de que neste trabalho o Rawet engenheiro colaborou, e muito, com o prosador. O protagonista ergue-se da cadeira, deixa a varanda onde estava, contorna as árvores de uma estrada e se dirige ao moinho. Mas ao se ajoelhar junto a engrenagem que impele a mó, acorda no sexto sonho. “Na mesma posição em que adormecera para sonhar o moinho”. A narrativa adensa-se, tornando-se claustrofóbica, graças à busca incessante, por parte do narrador, dos possíveis nexos entre os sonhos. Após o último salto — espantado, o protagonista percebe que passara pelo primeiro sonho sem sequer notar-lhe o aspecto —, acorda num quarto de hotel, de volta à realidade. Mas no final a realidade inverte-se: andando na rua, um tremor lhe dá a sensação de que ter saído do hotel e estar andando na rua é, talvez, só o princípio “do primeiro sonho de outros sete, de sonhos descendentes, negativos, impregnados de sua ação cotidiana”.
O estrategista e o matemático que há no engenheiro-escritor também participam intensamente dos demais contos da coletânea. Em Kelevim, eles narram a perseguição de uma cidade imaginária — segundo o próprio autor, produto de sua preguiça mental — a um homem “que teimava em viver, para escândalo de todos”. Certamente em resposta à Pasárgada de Manuel Bandeira, a peripécia chega ao fim com uma guinada abrupta do narrador: “Em Kelevim levo uma grande vantagem: não sou amigo de ninguém”. Tão provocativo quanto este, o terceiro conto que mencionei, Fé de ofício, vai mais longe na negação da catarse, essa experiência até certo ponto escapista, como objetivo a ser alcançado por todo texto de ficção: simplesmente não entrega ao leitor um conto acabado, fornecendo-lhe, no lugar, quatro páginas de ruminações e rubricas, anotações e esboços de uma narrativa ainda por ser escrita: “Tenho presentes dois esboços de personagens, e um semi-esboço de cenário, e não sei por que me deva agarrar a alguma convenção de conto, não formulada aliás, e só apresentar a história depois de solver em detalhes os enigmas que personagens e cenários representam.” Mais adiante, o tom descamba para o jocoso: “As duas figuras têm como constante a insanidade mental. A primeira não sabe se é exatamente o cavalo branco de um general famoso ou uma poça d’água; a segunda oscila permanentemente entre os dois sexos, o que talvez provoque a gula de algum psicanalista”. E assim vai. A voz do Rawet ensaísta toma o controle da situação, desautorizando o ficcionista a finalmente dar início ao seu espetáculo de entretenimento. O saldo: um texto bem-realizado, paradigma de tantos outros gerados na faixa de tempo (1970-1990) em que os gêneros se interpenetraram e se confundiram furiosamente: meta-romances feitos de recortes de jornal, de minicontos, de bilhetes e de toda a sorte de elementos não-ficcionais; meta-ensaios feitos de deduções duvidosas e citações falsificadas, com o objetivo de se aproximar mais e mais da realidade pouco ordenada em que vivemos — com o irritante objetivo de provar que a vida é sonho.




NELSON DE OLIVEIRA nasceu em Guaíra (SP), em 1966. Mestre em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, defendendo dissertação sobre os romancistas Campos de Carvalho e António Lobo Antunes. Entre 1998 e 2001 colaborou regularmente, com resenhas de livros, no caderno Prosa & Verso (O Globo), no Caderno de Sábado (Jornal da Tarde) e no Caderno 2 (Estadão). Atualmente colabora no Idéias (Jornal do Brasil), no Pensar (Correio Braziliense), no Rascunho e na revista Bravo!. Publicou "Naquela época tínhamos um gato" (Companhia das Letras, 1998), contos, Finalista do Prêmio Jabuti de 1999; "Os saltitantes seres da lua", (Relume-Dumará, 1997), contos e em 2004 publicará o livro de contos "Sólidos gozosos & solidões geométricas" (Record). Organizou ainda as antologias "Geração 90: os transgressores" e "Geração 90: manuscritos de computador" para a editora Boitempo, em 2001.

Post. Futurista.


Estrada


A narcose da viagem segura a minha mão com uma notável indiscrição...........
com um saco numa mão, ………espero um carro à beira da estrada,……sem conhecer claramente o meu destino…..estou em Lyon na estrada para Valence (França,) espero os prováveis 40 Km que se estendem à minha frente,…….. ………..parou um alemão, perguntou-me com sotaque, “Valênzia…., Ezpagne….? ………..são só mais 1200 …….,não penso,….. rapidamente subo para a viatura,……esqueço o equivoco,….. pergunto-me:”e como será Valência?”

…..e aí está o asfalto desfilando,……e o que fica para trás………………. ,é como uma 2ª vida percorrida num saboroso vazio,……………num hipnotismo de funambulo que despreza o fio de arame debaixo dos pés,…..a velocidade, ……………….e.o silêncio do condutor,……..numa cumplicidade que dispensa as palavras,………o ronrronar tranquilo do motor,……..uma música de aço,… sobre a partitura negra da estrada,………………paragens em estações de serviço………, que não pertencem aos mapas,…….que são propriedade de uma transumância,………..de um jogo de corre corre a adiar a vida,…..só pela velocidade,………só pela estrada,………só pela estrada,….qual a cidade seguinte? ……………….que importa!........... é só mais uma, como todas as outras,…..como a anterior……………………como a inicial, como a final……. tal como a morte e o nascimento…….. ligados pelo sólido cordão umbilical do asfalto……………………a fuga cega……….a fuga muda…………..a fuga ditada pelo silêncio dos humanos e pela mecânica que os transporta………… a viagem, sim a….viagem!!................... ………………….excelsa droga……………..fugindo da sua própria sombra,…………..até onde?......até onde!?.............não perguntes, não interessa, pois a viagem não é um meio…………a viagem vive, per si, a viagem é o fim em si…..dispensando a qualidade dos meios……………a viagem é a viagem…………sim………é pois isso mesmo!!….
tabuletas estranhas,…….. indicações como códigos de morse…procurando naufragos…….. num deserto povoado de desejo…….
na sua qualidade……… mecânica……………………..uma dança de dizeres…………………,e de semáforos como bailarinos inúteis…… dançando a sua única dança possível ……perto das portas sedentárias,………………e elegantes jogos de luzes pela noite fora, …….jogos de sonhos,................e cruzamentos de desejos…....com colossos com a forma de camiões, Viena/Turim/Génova/Barcelona/Budapeste…TIR/TIR/TIR/,o sangue das máquinas e das cidades……o alimento das bolsas e dos mercados…… para onde……..como!?....
não importa, não são jogos de palavras o meu destino,…..é a distância que conta ……a fuga no espaço circulante,…e a indecisão anterior ou posterior às urbes………o espaço de uma interrogaçãono remoto, os horizontes insuspeitos………e talvez as cidades….com interrogações em forma de viadutos……..onde encontrarei um oriente ou um norte….ou um espaço ou um sul de sentimentos absolutos e………….de verdades inesperadas….
que serão seguramente……… negadas pela seguinte cidade………..



Fernando Gregório

terça-feira, dezembro 21, 2004

O Tímpano e a pupila

Luís Miguel Nava

Num dos pratos o mar,
no outro um rio,
agora que o tempo se desossa,
que as pedras que piso
se me enterram na memória
e os caminhos
se me aguçam
na alma como lâminas,
o pão molhado nas feridas,
o pão ele próprio já também uma ferida,
agora que o tempo,
que já tanto compararam a um rio,
mais não é do que uma leve exsudação
nos muros,
nas mãos, agora que o céu se encrespa
e que pedaços de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve caminho,
a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória,
onde se fundem o tímpano e a pupila.


Que importa se te procuras
pelas ruas da
cidade!
Se te assinalaram
os itinerários
,
onde
te foi vedado o sonho!

Introduziram
-
te aos trânsitos indiferentes
a aos becos impotentes da renúncia.

Que importa
se te procuras
pelas ruas da cidade,
se a cidade te repudiou!



Fernando Gregorio



No Caminho de Swann (trecho)


"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."

Marcel Proust



sábado, dezembro 18, 2004

Silves II


As viagens familiares de fim-de-semana a Silves tinham por vezes como destino a casa do avô materno, o avô Duarte.
O avô vivia numa casa que distava uns 100 metros ou pouco mais da casa da minha avó paterna a avó Silva. Ao contrário da casa desta, que era uma casa de agricultores, onde se sentia em qualquer sítio o ambiente do campo (vetustos cântaros de azeite, carroças para o transporte do medronho, galinhas e respectivos pintos mais a passarada de meu avô Gregório), embora se situasse no centro de Silves. A casa de meu avô Duarte, era o lar de um industrial de profissão e de um maçon respeitado na sua loja e na região.
O trato com o avô era um trato refinado e distante. Diríamos estar na presença de um aristocrata, havia um distanciamento que nada tinha a ver com a ruralidade da família Silva Gregório. O centro da casa, a por assim dizer “casa das máquinas”, daquela nave encalhada ali junto à Sé de Silves, era a biblioteca. Essa biblioteca situava-se numa espécie de torreão que “desafiava”apesar da diferença de escala, a Sé (a casa da padralhada), como dizia o avô, que era um anticlerical do mais virulento que se possa imaginar. As cruzes estavam proibidas em casa, não se celebravam a Páscoa e o Natal, os domingos não era sagrados pelo avô, que os usava para fazer algum trabalho suplementar no escritório da fábrica de transformação de cortiça, ou nas várias farmácias que possuía, ou mesmo no seu cinema que era o único da cidade.
O avô era uma personagem que me intrigava sobremaneira, sobretudo quando usava polainas e aquela corrente de relógio que pouca gente ainda usava, parecia alguém que tinha saído de uma história qualquer, ou mesmo chegado de uma qualquer cidade distante.
Enquanto o meu pai falava com o sogro, eu fazia uma exploração pelo quintal do avô, quintal esse que era limitado a norte pela velha muralha Almoada do castelo, o objectivo da minha exploração era quase sempre o galinheiro. Era um galinheiro que tinha algo de diferente, é que ao contrário do galinheiro da avó camponesa do lado paterno, as galinhas e os galos não tinham outro fim senão o de morrerem de velhos (se não tivessem o azar de morrer precocemente de uma qualquer maleita), o avô era incapaz de comer os bichos, e então era vê-los já com umas esporas enormes, devido à idade, de tal sorte que os animais mal podiam andar. Punha-me a pensar,”Se a avó Silva aqui estivesse começava logo a magicar sobre a forma de rentabilizar os galaróides, ou de cabidela ou no forno, e a velha galinha já não punha ovos…..? Então, panela com ela!”. Se ainda os pusesse, então, era mais um negócio rentável.
Aquilo de criar bichos com bom milho e bom pão, para depois os deixar morrer de velhos e enterrar (será que havia um cemitério para galinhas………,pensava eu!) ,só podia ocorrer a um industrial maçon, com a cabeça cheia de ideias esquisitas que vinham nos livros que chegavam no comboio de Lisboa. Para a avó Silva era um atentado anti-natura……um caso perigoso, era claro e bom de ver!




Fernando Gregório



sexta-feira, dezembro 17, 2004

A TURQUIA



Passo a citar um artigo jornalístico publicado no diário “A Capital”,de 17 de Dezembro de 2004, assinado por Fernanda Mira:
“Os chefes de estado e de governo da EU, dizem que o país (a Turquia), tem dez anos para sair da “medievalidade” .Neste termo cabe todas as criticas à prática religiosa do povo turco. Quer concordemos ou não com os desígnios do islamismo, ele é a essência da Turquia”.
Conclui assim a jornalista o artigo: “Veremos se não se concretizam as palavras de Kadhafi;(haverá consequências da entrada do cavalo de Tróia).
Se não fosse esta opinião encontrar ultimamente eco no seio de muita boa gente, não me daria ao trabalho de a comentar. Mas o que se passa é que este tipo de argumentação colhe a simpatia de muitos notáveis e também de muito do que chamamos “o homem de rua”. Desta forma e dito de maneira directa, esta argumentação poderia ser traduzida da seguinte maneira (A Turquia até é um país simpático (e exótico), só que lá infelizmente predomina uma religião “feudalizante”) .
Muitos dos defensores desta tese, não dizem uma palavra sobre a tortura de sindicalistas, sobre o encarceramento de militantes de esquerda, sobre a cruel repressão sobre os curdos (esta repressão é vista com bons olhos por alguns, mas era um crime quando os repressores eram soldados a mando de Sadam Hussein.
Pode-se dizer que uma boa parte dos nosssos esclarecidos já pegou o vírus da intolerância religiosa, e foram em definitivo contagiados pelas teorias de Bush e dos Bin Ladens.
De facto o grande pecado original da Turquia é o imenso poder do complexo militar –armamentista, poder esse que impressiona qualquer um, basta visitar Konia e percorrer 70 Km. de estrada sempre bordejada por enormes fábricas de armamento.
O super exército Turco tem um poder que invade o domínio político e que esvazia em grande parte a essência do regime dito democrático.
Já tive oportunidade de ver esse mega exército em acção, pois estava na Turquia quando do golpe de estado dirigido pelo general Evren em1980.
Estive na praça Aksaray debaixo de fogo durante um quarto de hora e pude ver como uma unidade de PMs, matou todos os ocupantes de um velho Buick que teve uma trajectória duvidosa, dando a entender que se propunha atropelar um grupo de soldados turcos.
Na semana seguinte ao golpe de estado, foram fuzilados centenas de sindicalistas e militantes de esquerda.
Alguns desses generais estão ainda hoje em lugares chave do exército turco.
Mas apesar de tudo isto, algumas cabeças iluminadas, só vêem o perigo do cavalo de tróia islâmico. Eles são os defensores da pureza religiosa da Europa e não querem misturas (cada um no seu lugar). Talvez num futuro próximo, sejam vistos a predicar pelas estradas em favor da constituição de uma inquisição pós-moderna.

Basta de fugir ao essencial da questão Turca. É tempo da Europa fazer uma monitorização eficaz em relação aos direitos humanos e garantias, e ao respeito pelas culturas minoritárias. Essa monitorização é absolutamente necessária, pois também os Turcos são especialistas na construção de relatórios que não correspondem às realidades no terreno, (afinal, não somos só nós!).

Fernando Gregorio

Porque razão o meu Blog, não tem imagens?
É simples de explicar o meu computador converteu-se ao Islão.................não come porco e vira-se 5 vezes por dia para meca.
é o que dá comprar portáteis "made in Singapura"
Saúdades de Marrocos?? Muitas!Uma limpeza de cabeça que faz parte da minha higiene mental,
Antecipo a páscoa e vejo-me a fazer a mala.
O Rif............. o Kif então nem se fala...............!!
tenho lá metade do meu coração.Hoje sinto-me incompleto!
Começamos numa extensão interior, onde a dúvida dita as suas leis,
em seguida desejamos na edificação do silêncio os indícios
que acautelam as palavras que nos contradizem.


Fernando Gregório

Começamos numa extensão interior, onde a dúvida dita as suas leis,
em seguida desejamos na edificação do silêncio os indícios
que acautelam as palavras que nos contradizem.


Fernando Gregório
O programa “A quinta das celebridades”, lembra-me o que disse Marlon Brando poucos anos antes de morrer, numa entrevista ao NY Times, acerca da degradação da oferta televisiva norte-americana.

- A televisão, chegou a um ponto tal ,que eu já não ficaria admirado se transmitissem um concurso “de peidos”.


Départ
Assez vu.
La vision s'est rencontrée à tous les airs.
Assez eu.
Rumeurs des villes, le soir, et au soleil, et toujours.
Assez connu.
Les arrêts de la vie.
- Ô Rumeurs et Visions !
Départ dans l'affection et le bruit neufs !


A.Rimbaud

quinta-feira, dezembro 16, 2004

A Assírio e Alvim, vai publicar o livro de Stefan Zweig-O mundo em que vivi

A não perder!!!

O site da Assirio é:

http://www.assirio.pt




MINHA LÍNGUA, SUA LÍNGUA
Paulinho Assunção


todos os dias tomo de assalto o idioma,
eis a minha guerrilha,
dele tudo quero, o novo e o velho,
o sabor e o aroma,
em Portugal ou Macau,
Madeira ou Angola,
em Moçambique ou Guiné-Bissau,
do idioma tudo quero e a ele tudo dou,
palavras antigas que recolho a anzol,
novas palavras ainda larvas,
ainda lêmures,
limbo de vocábulos,
trevas de libélulas,
sóis e luas de palavras,
todas eu quero,
a todas eu me dou,
todas eu ponho qual poria a fruta
entre o céu da minha boca e a língua da sua língua,
qual poria a boca em outra boca,
escrevo-as como quem beijasse e beijaria,
escrevo-as como quem beija,
fricativos beijos, labiais enguias,
escrevo-as como quem procria,
minha língua portuguesa,
minha língua brasileira,
minha angolana língua,
minha dama,
namorada e menina,
festim e banquete da folha em branco
do papel que é barco e é barcarola,
que é caravela,
que é pássaro e é pólen ao vento e à ventania,
minha língua na sua língua,
sua língua na minha língua,
tupi nas águas do Tejo,
banto na foz do Amazonas,
adagas árabes nas consoantes,
concertino de dizeres sefarditas
nos quintais de Minas,
dizeres maxacalis nas ruas de Maputo,
língua,
sua língua,
minha doce fera,
onça, onça latina,
todos os dias tomo de assalto
a minha língua
assim como quem sonhasse,
como quem sonha e sonharia.
(Este poema é dedicado a Francisco José Viegas)
Paulinho Assunção, 2004
do dicionário mínimo
Fernando Fábio Fiorese Furtado

anágua
A madureza me surpreende com a palavra anágua.
O dicionário diz do étimo taino, ainda recendendo a Antilhas; diz da travessia do Atlântico, quando as tormentas do espanho - enaguas - para o português exigiram reparos na proa e o lançar ao mar o astro do plural.
A moda diz de uma peça obsoleta ante o império da transparência, do corpo-vitrine, sem vincos, menos fusco que fátuo fulgor. Desvendado, desventrado, dissipado.
Na infância se escondia sob as saias que jamais levantei. Ou acenava do varal, com rendas e aromas. Cet clair objet du désir nunca estava no rol de roupas sujas. Não se misturava com panos de frato, fronas e toalhas.
Na madureza, restou apenas a prósdia líquida da palavra. Um mundo animado de anas e águas, de avas e vagas. Vocábulo de tanque, de cisterna.



sombra
Está ali desde sempre. Quando convida é para soletrar fantasmas.
Sem ela não existia árvore, pássaro, casa, nuvem, verão.
Semela, a musa mirrava.
Aprecia o espelho, o palrar dos signos, os hóspedes sem pressa; comfabula com a a febre, com a fuga e o açúcar; acompanha os gestos daquela moça depois de nua.
Pode-se tornar portátil e atravessar a tarde nas mãos de uma dama antiga.
De todas, prefira a física.


queda
Foi uma esfoladura no joelho de Deus. Ainda quando decai, nos domina.
jornal Panorama-Brasil

«Operação» imóveis

Em risco de ser chumbada em Bruxelas Governo desiste de vender património. UE não deu garantias de aceitar o negócio


Ilídia Pinto-DN 16 de Dezembro

As trapalhadas deste desgoverno parecem aproximar-se do precipicio.Já passaram a linha vermelha!! Trata-se de um desgoverno de gestão e não me parece que o silêncio de Sampaio seja útil numa situação destas!!
Portas e Santana, necessitam com urgência de um colete de forças!!

fernando gregorio

">Link fduagreg@hotmail.com

Para contacto com Fernando Gregório

S. Zweig

Um livro a não perder!!


Stefan Zweig.
O Combate com o Demónio.
Antígona, 2004,

trad. José Miranda Justo



"Mesmo de um ponto de vista exterior nota-se imediatamente no destino destas três figuras heróicas, Hölderlin, Kleist e Nietzsche, uma evidente coincidência: encontram-se os três, por assim dizer, sob o mesmo signo. São expulsos do seu próprio ser por um poder superior, de certa maneira sobrenatural, e atirados para dentro de um ciclone de paixão que os destruirá, terminando precocemente os seus dias numa terrível perturbação do espírito, numa fatal embriaguês dos sentidos, na loucura ou no suicídio. Separados do seu tempo, incompreendidos pela sua geração, cada um deles passa meteoricamente como um lampejo breve através das trevas da missão que lhe coube. Desconhecem o seu caminho, desconhecem o sentido da sua existência, porque o seu trajecto os conduz do infinito ao infinito; na sua ascensão e queda, mal chegam a tocar no mundo real." pp.8 e 9

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Construir o corpo junto dos abismos,
no ventre dos sinais que precipitam as palavras.
Esquecer o vazio transportado
pelos dias frios, pelos hábitos imprudentes.

Submergir cada golpe na incompreensão
dos dias.

fernando gregorio



terça-feira, dezembro 14, 2004

Ontem fui almoçar com o Tó Lam. e o Ma. Ros., sucedeu-me mais uma vez ,o que agora me é cada vez mais costumeiro. Desfiz-me em palavras e esqueci-me por completo do bife. Depois queixei-me à menina, "que estava muito duro".Tretas! Deixo a comida ficar fria, e depois lá arranjo uma boa desculpa. Fico excitado como uma criança quando em Lisboa como entre amigos. Enfim, idiossincrasias!


fernando gregorio
Tempos houve em que as palavras eram o começo,
e se cantavam num mundo de hortos de labaredas.
Aí, onde os cantos dos tempos de criança
se ampliavam pelas largas planícies silenciosas,
habitando os ecos semelhantes às palavras
que hoje escrevo.

Fernando Gregório
"Antígona"

Sobe ao palco em Tavira
Dia 10 de Dezembro O palco do Cine-Teatro António Pinheiro, em Tavira, recebe no próximo dia 10 de Dezembro a nova peça da Companhia de Teatro do Algarve, "Antígona". Da autoria de Sófocles e Maria Zambrano e com encenação de Luís Vicente, a peça começa com a chegada de Antígona a Tebas. Na cidade os seus dois irmãos, Etéocles e Polinices, disputam o poder da força, optando por não a partilharem. No campo de batalha morrem às mãos um do outro, deixando o poder ao familiar mais próximo, o seu tio Creonte.



Palavra de honra que não entendo que mal fizeram os tavirenses para ter de sofrer esta "Antigona".
Pergunto-me, se para tortura não seria mais eficaz mergulhar os espectadores no rio Gilão, durante a noite (possivelmente não seria tão violento).
A representação arrasta-se dolorosamente ....numa alucinante mediocridade,......os textos não são ditos, são maquinalmente debitados............(a bem dos insomnes...), que nessa noite em Portimão resolveram o seu problema durante alguns minutos.
O monólogo final é confrangedor,......magoa.
Maria Zambrano a grande filósofa Malaguenha, deu voltas no ataúde (coitada, sempre merecia algum descanso).
De Sófocles então......é melhor não falar, os seus ossos devem ter pegado uma maleita qualquer,(talvez uma osteoporose rectroactiva).
Não se representa ,Antigona,com actores medianos e com uma encenação mais ou menos circence (por vezes a contenção, "amplia a nitidez do texto").
Há que haver humildade,..........que é coisa altamente deficitária hoje em dia ........e infelizmente ,não só no meio artistico.

PS: Luis Vicente, é um optimo actor! (disse actor.......nada mais!).
O Zé Eduardo é um optimo baixista! (e muitas coisas mais!).


fernando gregorio

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Aqui tem o "link", para o óptimo site da ASSIRIOhttp://www.assirio.pt/inicio.asp
Queda


Era uma cidade de luz que ardia na gentileza da tarde.
A sua luz era como o animal aberto das manhãs, o céu era
uma toalha imaculada que cobria a festa que nomeava um mundo onde as palavras ainda não se haviam transfigurado nos grandes felinos alados que procuravam os reinos imaginários, folhas de luz aclamavam as onomatopeias que dariam lugar ao tempo.
Enchiam-se de diamantes os corações de todos os inícios, onde
hemisférios vegetais devoravam a terra numa fecunda loucura, quadris femininos abrasavam os sentidos.
Mas algo de obscuro preparava as suas garras, e um luxo violento maculou a pureza das mãos transformando-as em ininteligíveis crânios.
Nada do que existia foi poupado, respirava-se a beleza sangrenta dos homens que já não o eram, pois passaram a povoar sombras que deles eram distantes.
As palavras ressurgiram então no definitivo da sua própria ambiguidade, abandonando o exacto dos reinos imaginados, as palavras passaram a dizer unicamente o indecifrável, as palavras transformaram-se num logro consentido, num território de trevas e de sussurros ambivalentes.
Todas as imagens habitavam a mácula dos caminhos do
logro, as bandeiras proclamavam os frutos fechados da destruição.
O que não era dito e o que fora dito nem sequer era propriedade da velha serpente que outrora pertencera aos antigos jardins. Era um mal sem nome, um veneno sem rótulo nem designação.
As árvores renderam-se a essa surpreendente e desconhecida voragem.
"A idade antiga foi vencida". Pensaram os homens. No entanto não entendiam que as madrugadas traídas nasciam dos abismos
inaugurados pela irrecuperável distância das sua infâncias.


Fernando Gregório

sábado, dezembro 11, 2004

“Made in Silves”


Três dias, três propostas

Em Dezembro, mais exactamente nos dias 16, 17 e 18 de Dezembro, a partir das 21:30 horas, o APARTE apresenta “Made in Silves”, um programa que engloba três propostas diferentes, uma para cada um dos dias, de interligação entre a expressão plástica e a expressão musical, com artistas plásticos e músicos do concelho de Silves. No dia 16 a pintura e o jazz vão estar a cargo de Joaquim Mendes e do Quinteto Jazz do Sul. No dia 17 a noite é recheada por Grafitti e Hip-Hop dos Evolusom. No dia 18, o Aparte de Silves apresenta Banda Desenhada e Rock/Pop, tendo como convidados Roberto Castor e Cláudio Santos.

in: Diário On-Line Algarve 10 de Dezembro

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Aí está a melancolia do Natal,.............a saudade da grande familia à volta da mesa.
O sorriso luminoso e contido de minha mãe, os "à partes",sempre graciosos de meu pai. As crianças, os meus sobrinhos, sobrinhas,primos e tios.
A mesa farta (graças a Deus!).O sentimento de comunidade...........a cumplicidade, os gestos que se repetiam, ano após ano, como se pudessemos considerar esse encontro como algo vitalicio, talvez mesmo perpétuo.Como tudo pulsa no interior desta fragilidade subjacente ao que chamamos "vida".
Agora resta a recordação melancólica de uma data ,que passou a viver sobretudo nos calendários.
Um vazio que ultrapassou o tempo. A intemporalidade que sentimos, quando amamos alguém!


fernando gregorio

quinta-feira, dezembro 09, 2004

segunda-feira, 06 de dezembro de 2004 por Moacyr,

Quando se celebra a vitória do Sérgio, do Empalavrado, no Concurso de Contos do blog português Chá de Limão! Parabéns!

Do blog brasileiro,Amalgamar.
Outro dia conheci um escritor e fiquei a pensar: interessante essa vida de ficar inventando histórias para os outros se distrairem, não é? E, enquanto o escritor falava de si, eu imaginava a sua casa. Devia ter um gigantesco armário só para os grandes livros de capa escura, além de pequenas caixas coloridas para os outros.
Empilhados, no lado direito, dicionários de todas as línguas dos povos e, no lado esquerdo, maços de lápis macios, muito assemelhados a varinhas mágicas. Talvez, pelo chão, salpicassem bastões de cola para grudar palavras ou expressões rebeldes e desobedientes a inúmeros comandos. Pequenos cestos junto às janelas reuniriam linhas invisíveis para alinhavos especiais de capítulos. Sobre o aparador, lunetas, sim, poderosas lunetas para observar detidamente os incipientes sobressaltos e os elaborados questionamentos humanos a serem colecionados em seu coração.
O escritor seguramente teria réguas, ao menos uma dúzia, calibradas em centímetros e polegadas para melhor avaliar a extensão das emoções e perplexidades dos personagens.
E, também, reunidos sobre a mesa de trabalho, pequenos pires com distintos sabores da experiência humana, das muito doces às mais acres, além de estojos de aquarelas para matizar cada diálogo ou encontro do herói com os seus pares. Mapas, claro que sim, repousariam em grandes tubos cromados mapas de diferentes lugares para melhor localizar as possíveis paisagens dos encontros de cada pessoa ou animal de seus textos.
Nas gavetas, inúmeros objetos utilíssimos para o exercício da criatividade verbal: velas de acendimento automático para instantâneas soluções de impasses narrativos, frágeis peneiras para selecionar conteúdos de parágrafos, além dos óbvios cadeados para manter em segurança as futuras tramas de próximos escritos.
Pelas paredes, espelhos cristalinos a refletir, de forma inequívoca, qualquer movimento e emoção de cada personagem, além de inúmeros flocos de algodão para as habituais reflexões silenciosas do literato.
Finalmente, dispersos por toda a casa vasos para diversos estilos de arranjos florais como suporte necessário para saudar a entrada em cena de cada tipo em seus enredos. Imagino a casa de um escritor uma grande cornucópia de saudades e sorrisos a lembrar, a lembrar.

Moacyr-Brasil

Brasil Profundo 3 - Desatino
É me sempre dificil ,escrever poemas eróticos,fico sempre como dizem os brasileiros,"sem jeito",desnudo-me mais do que aquilo que me apraz despir.
Sou dos poetas que escrevem para se ocultarem nas palavras por si ditas. No poema erótico, esse exercício é terrivelmente difícil. O poema erótico, é visceral ,expôe-me de uma maneira que me fragiliza em excesso. Até hoje num total de mais de uma centena de poemas que escrevi,conto com 3 poemas eróticos.Quando os escrevo, fico entre o timido, e aquele que foi apanhado com as calças na mão!
Sou um poeta que escreve para se esconder.Talvez Pessoa tivesse razão,e o poeta seja de facto um fingidor.
Na maioria dos poemas que escrevo,sou outra pessoa, ou pelo menos julgo ser,isso tranquiliza-me.
Fujo-me ,escondo-me na muralha construida pelas palavras que escrevo.


fernando gregorio

quarta-feira, dezembro 08, 2004

CARNE


Como uma flor letal
a carne das tuas coxas.

Uma carne em chamas
entre o arco elástico do teu ventre
Território de tesão,
desejo infindo.

País secreto,
de um cio sem nome.

Sem explicação.

Fogo inaugural
habitando a carne
desconhecendo
o principio,
desconhecendo limites.

A nossa pele
é exterior às fronteiras,
que definem o território
que entre nós se decompôs.

Perder-me-ei em ti
na ignorância,
do dia feroz
que se encobre
para lá das janelas.

O ilimitado das manhãs,
será a nossa região!


Fernando Gregorio
O MEU LADO SOMBRIO




O meu lado sombrio habita uma estranha cidade, nessa cidade circula um só passante de cada vez. Digamos que é uma cidade exclusiva, uma cidade de solitários. A cidade de cada vez.
Habitam-na alguns milhares de pessoas que jamais se avistaram. Pois a urbe impõe o seu código exclusivo, um habitante, um habitante de cada vez.
Cada habitante julga-se o único, cada habitante sente a cidade como sua criação, como se ela fosse matéria construída pela sua vontade indomável de poder.
Este é o sentimento comum aos habitantes, é o elo oculto que os une, apesar da ignorância, do mistério imposto pela cidade.
São dominadores, não dominados, assim pensam. Julgam-se os construtores e no entanto são peças inconscientes de um jogo que lhes é estranho, de um jogo que lhes impõe as trajectórias pelo desabitado das ruas vazias. Que julgam exclusivas.
O meu lado sombrio habita essa cidade, esse desencontro organizado, esses milhares de habitantes de uma intermitência de discordâncias.
Cidade exclusiva de cada um, cidade armadilha de todos. Jamais os seus habitantes pensaram abandoná-la. Julgam-se todos seguros na sua cidade. Cada habitante comunga do desconhecimento no desacerto. Cada habitante no entanto, sente constantemente a presença exclusiva dos milhares de ausências que o circundam.


Fernando gregorio

segunda-feira, dezembro 06, 2004

ERIK SATIE- Trois gymnopédies


Uma linguagem distante
despedaça pouco a pouco,
o rigor dos códigos.

Rapidamente, as mãos
acenderam fogueiras,
onde a eternidade jaz sobre as teclas.

Sinais secretos purificam as mãos
e a palavra é uma abstracção
de relâmpagos

O verão multiplicou-se
onde a citara mergulhou na casa

O piano espera pacientemente
a proximidade da noite.


Fernando gregorio
Poemas do livro Cinco Marias

Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.

O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais:
jornais, retratos,poemas,
posteridade.

Minha bagagem
é a roupa do corpo. ...

Eu fui uma mulher marítima,
as rugas chegaram antes.

Eu fui uma mulher marítima,
paisagem e pêssego,
uma faísca entre a corda do barco
e a rocha.

Eu fui o que não sou.

Depois que inventaram o inconsciente,
a verdade fica sempre para depois. ...

A mãe orquestrava a horta.

Reservava espaço para ervas
daninhas e seu alfabeto de moscas.

Não mexia na ordem de Deus.

Louvada seja a esmola de uma hortaliça. ...

Acerto o relógio pelo sol.

Percorro as dez quadras de meu mundo.

As ruas são conhecidas e me atalham. ...

Meu medo se interessa por qualquer ruído.

Hoje quero alguém para conversar
enquanto dirijo, baixar os faróis
em estrada litorânea,
enxergar pelas mãos. ...

Fazer as coisas pela metade é minha maneira
de terminá-las.

Fabricio Carpinejar

O poema aqui publicado integra o livro inédito "Cinco Marias"


Carpinejar, Fabrício Carpi Nejar, poeta e jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS.

Nasceu em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972.
É autor dos livros:

As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998),
Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000),
objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Enciclopédia Britânica,
Terceira Sede (Escrituras, 2001),
Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002)
eCaixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003)
Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004)

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