observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Escultura e fotografia no Convento de São José


A Sala de Exposições Temporárias "Pintor Manuel Gamboa", situada no Convento de São José, em Lagoa, recebe até 16 de Março, uma exposição conjunta de Escultura (com José Maria da Silva Pereira) e Fotografia (pelo artista convidado, João Pedro Costa).


O escultor lagoense regressa ao espaço com as suas obras que "nos surpreendem com uma serena e lírica expressividade, grávidas de sugestivas metamorfoses, equilibradas entre o figurativo e o abstracto, onde a cor também sublinha as formas com uma luminosa presença", como comenta a nota de imprensa da autarquia de Lagoa.


João Pedro Costa, fotógrafo natural de Sagres, apresenta imagens sobre a Costa Vicentina, estando patente "a forte personalidade daquela natureza selvagem".

Esta mostra pode ser visitada de segunda a sexta-feira (entre as 9:00 e as 12:30 horas e das 14.00 às 17.30 horas) e aos sábados e feriados (das 14:00 às 18:00 horas).
EP/RS

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Encontro sobre adolescência



A propósito do lançamento do livro «Vontade de Ser


– Textos sobre a Adolescência», de Pedro Strecht,

a Assírio & Alvim convida-o(a) para o seguinte programa que terá lugar no dia 4 de Março de 2005 no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.



9h30 – 10h15 «Adolescent Identity and the Internal World; a Psychodinamic Perspective»Nicholas Temple, psiquiatra, psicanalista, director executivo da Tavistock Clinic, Londres; Luís Simões Ferreira, pedopsiquiatra, director da Clínica da Juventude do Dpto. de Pedopsiquiatria do Hospital de D. Estefânia (moderador)



10h45 – 11h30 «Parenting in Adolescence: What do Young People Need?»Elizabeth Bradley, pedopsiquiatra, Dpto. de Adolescência da Tavistock Clinic, Londres; Teresa Sá, psicóloga, psicanalista (moderadora)



12h00 – 12h45 «O que os pais pensam sobre os filhos adolescentes»Daniel Sampaio, psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa; Paula Medeiros, pedopsiquiatra (moderadora)



14h30 – 15h15 «A importância da música na construção da identidade juvenil»Christopher Bochmann, maestro da Orquestra Sinfónica Juvenil, chefe do Dpto. de Composição da Escola Superior de Música de Lisboa; Inês Barata, violinista, professora (moderadora)



15h45 – 16h30«Qual é a coisa mais bela sobre a Terra escura? (Adolescência e Espaço Interior)»José Tolentino Mendonça, docente da Universidade Católica; Laurinda Alves, jornalista, directora da revista Xis (moderadora)16h45 – 17h30«Os adolescentes, o espaço e o tempo»
Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana; Ana Maria Vieira de Almeida, directora da Cooperativa «A Torre»
Reflexos do quotidiano nas antigas colónias portuguesas;

Um excelente romance.

Muitos anos passados após a independência e o êxodo quase total dos portugueses, Moçambique continua no coração de quem lá viveu. Fazem-se telenovelas como "A Jóia de África" e escrevem-se belos livros como "A Árvore das Palavras" de Teolinda Gersão. São deste livro que recomendo, algumas passagens que ilustram esta página.




"Nada vejo, aqui sentada diante da mesa redonda do café, e no entanto essas coisas longínquas, como os barcos passando, o movimento dos barcos, fazem parte deste minuto, em que tudo esta contido. Rodo a colher no gelado, levo-a devagar a boca. Creme vermelho, de groselha, derretendo. Sabor do Verão. Mais alto, contra o céu, balançarão as acácias. O que penso não tem nitidez, e talvez só uma aproximação inexacta. A vida cabe numa colher de gelado, respira-se, devora-se com a boca.
Tudo acontece agora muito devagar, os barcos tem todo o tempo para partir ou para entrar no porto, as crianças riem, de puro gozo de brincar nas ondas. Devagar, devagar. O tempo é um hálito, um sopro. Não tem nenhuma pressa, demora-se, por momentos parece ficar parado para sempre." (Teolinda Gersão).
"Descemos as ruas, chegamos ao fundo e entramos nas docas, caminhamos ao longo do cais.Esse era, foi sempre, o favorito de todos os passeios. O olhar perdia-se no meio de tudo aquilo, a floresta dos navios, o perfil muito alto dos guindastes e , das grúas, os carris que corriam pelo chão, ao longo de quilómetros, o balanço dos barcos ancorados, o casco negro que ao sabor da ondulação se tomava mais ou menos visivel.
E havia aquele cheiro, nem sequer agradável, mas intenso e familiar, a óleo, a água e a lodo, e os nomes e siglas que nos vinham a memória, também eles familiares de tão ouvidos, Robin, Farrel, Gold Sta1; Lykes, South African, Deutsche, Cotts e outros. Porque esta é uma cidade-porto, uma cidade-cais e é aqui, em frente ao largo estuário, que o seu coração bate mais depressa.” (Teolinda Gersão).
“Mas já de novo em volta a cidade se agita - cresce, multiplica-se como um caleidoscópio. Andaremos pelas ruas, sabemo-las de cor. De algum modo elas estão em nós, como linhas gravadas na palma da mão. Paralelas, perpendiculares geométricas - outras que seguem apenas os seus cursos próprios, como os da água ou do vento.
A cidade é um corpo vivo respirando, o meu, o teu, o dos outros, o do mundo, é uma infinita intersecção de corpos, nos momentos incontáveis do tempo, repetida como as ondas do mar. E é inútil tentar olhá-la, como é inútil olhar as ondas -ainda mal se levantaram e já se desfazem na areia, e também o nosso olhar se desfaz com elas.
Dizem que este Verão vai ser mais quente que no ano passado, anuncias sem levantar os olhos. E para a semana começam saldos sensacionais no Fabião. Sim, é uma cidade ordenada, de linhas regulares. E no entanto não doméstica, nem domesticável - nao se podem domesticar as casuarinas, nem os coqueiros, nem os jacarandás. Nem o capim, nem o mato.” (Teolinda Gersão).




"É verdade que uma certa embriaguez nos assaltava, tomava conta de nós, África entorpecia-nos, sim, entrava dentro de nós como um bruxedo.O mato. Mergulhava-se nele como no mar. E ele envolvia-nos com a sua presença obsessiva - havia de tudo no mato, répteis, pássaros, antílopes, insectos, manchas de vegetação e longos troços desolados. Mas mesmo esses espaços aparentemente vazios eram densos, a vida cercava-nos, no arrulhar da rola, no grito rouco do sapo-boi, no canto enlouquecido da cigarra. Estava lá, na polpa ácida dos frutos, no coração azedo da maçala, no recorte silencioso de bocas, patas, garras invisíveis, estava lá e tocava-nos, doendo, com os dedos aguçados da micaia.” (Teolinda Gersão).



"Havia aquela pérgola, cheia de flores de buganvilia, onde agora estava, havia, por exemplo, o Miradouro eo Caracol que ás vezes gostava de descer a pé, até junto da praia.Era um mar em geral sossegado, com ondas mansas, não azul, como ela julgara antes de o ver, mas de um verde-cinzento, quase cor de chumbo. Podia-se caminhar muito tempo à beira-mar, o passeio era empedrado e largo, e havia a sombra dos coqueiros. Quando a tarde era fresca e a brisa batia na cara, parecia que se podia caminhar até à Costa do Sol sem sentir cansaço, embora fossem uns doze quilómetros ou mais.
Na praia, na maré baixa, as ondas recuavam e deixavam a descoberto uma faixa enorme de areia. Branca, fina. Mas o mar cheirava pouco a maresia. Mais bravo e mais azul e com mais cheiro de mar, era na Macaneta. (Teolinda Gersão).


"Assobiava debaixo das árvores do Xipamanine, caminhando no meio dos rapazes que descarregavam camisas, bonés, bacias de plástico e toalhas de banho, das vendedoras de feitiços sentadas em cima de sacos, de baldes deborcados, de pequenos bancos de madeira.
As mulheres usavam lenços na cabeça, saias e blusas, ou capulanas, amarradas em volta do corpo; os lenços, as capulanas e as blusas tinham desenhos diferentes, e a regra (se tivesse de haver uma regra, mas na verdade não havia) era que tudo combinava com tudo, de modo que todas as combinações de cores e desenhos eram possíveis, e o resultado era surpreendente.
Sobretudo se ele olhasse não só para uma mulher, mas para os grupos de duas ou mais, em que geralmente andavam, e reparasse na mistura que faziam. No conjunto eram um quadro movediço andando." (Teolinda Gersão).

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

O VERÃO

Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


José Agostinho Baptista


Paixão e Cinzas (1992)
In Biografia
Lisboa, Assírio & Alvim, 2000
FUNDACION MiTíCA DE BUENOS AIRES

JORGE LUIS BORGES




¿Y fue por este río de sueñera y de barro que las proas vinieron a fundarme la patria?
Irían a los tumbos los barquitos pintados entre los camalotes de la corriente zaina.


Pensando bien la cosa, supondremos que el río
era azulejo entonces como oriundo del cielo
con su estrellita roja para marcar el sitio
en que ayunó Juan Díaz y los indios comieron.


Lo cierto es que mil hombres y otros mil arribaron
por un mar que tenía cinco lunas de anchura
y aún estaba poblado de sirenas y endriagos
y de piedras imanes que enloquecen la brújula.
Prendieron unos ranchos trémulos en la costa,durmieron extrañados.
Dicen que en el Riachuelo,pero son embelecos fraguados en la Boca.


Fue una manzana entera y en mi barrio: en Palermo.
Una manzana entera pero en mitá del campo
expuesta a las auroras y lluvias y suestadas.


La manzana pareja que persiste en mi barrio:
Guatemala, Serrano, Paraguay y Gurruchaga.



Un almacén rosado como revés de naipe
brilló y en la trastienda conversaron un truco;
el almacén rosado floreció en un compadre,
ya patrón de la esquina, ya resentido y duro.


El primer organito salvaba el horizonte
con su achacoso porte, su habanera y su gringo.


El corralón seguro ya opinaba YRIGOYEN,
algún piano mandaba tangos de Saborido.


Una cigarrería sahumó como una rosa
el desierto.


La tarde se había ahondado en ayeres,
los hombres compartieron un pasado ilusorio.


Sólo faltó una cosa: la vereda de enfrente.A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires:
La juzgo tan eterna como el agua y como el aire.
Partida

Suficientemente visto. A visão reencontra-se por todo o lado.
Bastante ter. Rumores de cidades, a noite, o sol, e sempre.
Bastante sabido. As sentenças da vida. - Ó Rumores e visões!
Partida na ternura e num sussurro novo!


Arthur Rimbaud


trad.fernando gregorio

terça-feira, fevereiro 22, 2005

ANTÓNIO RAMOS ROSA

A noite chega com todos os seus rebanhos
Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo
Há um íman que nos atrai para o interior da montanha.
Os navios deslizam nos estuários do vento.
Alguma coisa ascende de uma região negra.
Alguém escreve sobre os espelhos da sombra.
A passageira da noite vacila como um ser silencioso.
O último pássaro calou-se.As estrelas acenderam-se.
As ondas adormeceram com as cores e as imagens.
As portas subterrâneas têm perfumes silvestres.
Que sedosa e fluida é a água desta noite!
Dir-se-ia que as pedras entendem os meus passos.
Alguém me habita como uma árvore ou um planeta.
Estou perto e estou longe no coração do mundo.


In: A Rosa Esquerda, 1991
ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA
REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO
Ruy Belo


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
Março é mês de teatro em Loulé


Várias companhias levam a cena as mais recentes produções teatrais A Câmara Municipal de Loulé dedica o mês de Março ao teatro e fá-lo com "pompa e circunstância" levando até aos palcos do Cine-Teatro Louletano, Pavilhão Desportivo Municipal e da Fundação António Aleixo algumas das melhores companhias de teatro portuguesas.


Logo no dia 5, pelas 21:30 horas, a Companhia de Teatro Itinerante de Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia, sobe ao palco do Cine-Teatro Louletano para apresentar a peça "Tá a Secar a Teta Neste País".
Trata-se de uma revista à portuguesa baseada num original de Fernando Ary. Do elenco do espectáculo fazem parte o próprio Fernando Ary, Margarida Barata, Rita Macedo, Ana Perfeito, Fausto Silva, Diana Tavares, Sónia Carvalho, Carla Monteiro e Carolina Góis.


No dia 11, pelas 21:30 horas, o Cine-Teatro Louletano volta a receber mais uma peça, desta vez o espectáculo "O ABC da Mulher", uma comédia 100% feminina que pretende levar todas as mulheres ao teatro. A peça dá a conhecer a história de três mulheres que contam o que lhes vai na alma.
Os temas de conversa são variados e vão desde as suas experiências, à ansiedade da primeira saída após a separação, a momentos tão simples como a chegada da baby sitter (nova e gira), ou mesmo até os pensamentos mais filosóficos como o orgulho de ser português, graças às façanhas da nossa selecção, até às considerações mais hilariantes sobre a moda do fio dental.
O elenco é constituído por Ana Bustorff, Marina Albuquerque e Margarida Pinto Correia, numa sensível e criativa encenação de Rita Loureiro sobre um texto de Joana Pereira da Silva.



"Breve História da Lua" é o nome do espectáculo teatral que se realiza no dia 12 de Março, pelas 21:30 horas, no Cine-Teatro. A peça foi escrita por António Gedeão e, tal como outras obras do autor, assenta numa explicação dos factos científicos em linguagem acessível e compreensível até para um público mais novo.
Para esta encenação, o Teatro Análise da Casa da Cultura de Loulé preparou cantigas originais e figurinos que sublinham o carácter lúdico, ao mesmo tempo que ajudam a clarificar o lado "sério" da visão da lua.



No dia 14 o público infantil vai ser prendado com a peça "Era uma Vez... Um Dragão". Levada a cena pelo "Teatro A Pulga". Esta história infantil insere-se na iniciativa "A Escola vai ao Teatro". As sessões decorrem às 10:30, 14:00 e 16:00 horas, uma vez mais no Cine-Teatro Louletano.



No dia 17 o teatro vai até à cidade de Quarteira, mais concretamente ao palco da Fundação António Aleixo, para apresentar "1 Pijama para 6".
A peça conta com a participação de actores bem conhecidos das telenovelas portuguesas, caso de Tozé Martinho, Cristina Homem de Melo, Luís Zagalo, Maria João Sobral, Jorge Picoto e Belucha Menezes. A peça repete no dia 18, em Loulé, no Cine-Teatro Louletano, pelas 21:30 horas.




"A Curva" é outra das encenações que vai estar em cena no palco louletano. Agendada para o dia 19 de Março, no horário das 21:30 horas, a peça gira em torno de dois irmãos que vivem perto de uma curva de estrada.
Rodolfo concerta os carros acidentados e António escreve ofícios ao Director Geral de Estradas, pedindo que façam obras e tornem a curva segura. Os acidentes sucedem-se. Um dia ouve-se um enorme estrondo, mas desta vez o acidentado é o próprio Director Geral.




No dia 24 é a vez dos humoristas Tiago Dores, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela apresentarem, numa versão adaptada ao palco, os sketches da serie televisiva "Gato Fedorento". O espectáculo decorre no Pavilhão Desportivo Municipal de Loulé, a partir das 21:30 horas.





Nos dias 26 e 27 de Março a Companhia de Teatro do Algarve vai apresentar a peça "Morrer como um Marquês", no Cine-Teatro Louletano.



Acções de formação Paralelamente aos espectáculos que se realizam ao longo do mês de Março, a autarquia de Loulé vai promover acções de formação em teatro nos dias 1, 9, 16, 23 e 30 de Março, entre as 18:30 e as 21:30 horas, no Cine-Teatro Louletano.

Esta iniciativa, coordenada pela Associação de Formação de Teatro e Cultura (AFTC) tem em vista incutir o gosto pela arte dramática e dar algumas noções básicas a todos os interessados.
MF/RS

in;Diário on-line algarve 21 de Fev.2005

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Toda a cidade arde
Enquanto ele reflecte
Não sente remorsos
Pelo que fez
Não sente remorsos
Pelo que não fez
Ocupa-se na exploração
Do seu quarto
Quatro paredes
Quarto sólido
Na fragilidade da tarde
Pensa
E não se sabe no quê
Talvez o acto de pensar
O complete
No vazio ocupado
Pelo exterior
Pelo jogo de xadrez
O aleatório das ruas
No desinteresse
Dos príncipes que se batem
Nas suas guerras
Nos seus jogos fúteis
Lá fora onde algo se decide
Onde o silêncio devora os mapas
Onde os desertos se multiplicam
Enquanto as ruas se incendeiam
Ele reflecte
Olhando por vezes a janela
Como um caleidoscópio
Onde as cores há muito se fundiram
Como candeias loucas
Não existe mundo para além dessas paredes
Não existe esperança senão na espera
E assim estremece nas palavras
Nas palavras que há muito escrevera
Aplainando as horas da renúncia
Amando essa cidade que arde
Na veemência do seu entorpecimento.

fernando gregorio
O post seguinte foi retirado do sítio brasileiro da web "Digestivo Cultural".
Sobre "SONHOS VENCIDOS"de Clint Eastwood



Conduzinho Miss Maggie




Existem uns tantos filmes sobre boxe. Clint Eastwood, felizmente, parecia saber disso e, embora as fotos de divulgação indiquem mais um longa sobre lutas e treinamentos, Million Dollar Baby ou Menina de Ouro consegue ser mais e melhor do que uma versão feminina de Rocky, o lutador. Claro que o também grande diretor (talvez até mais que ator) não prescinde, dentro do gênero, de alguns clichês básicos.
Apesar da sugestão do homem-chavão, dizendo que as fitas de Clint e de Tom Cruise são todas iguais, nas linhas mestras, o caçador de obviedades livresco parece ter alguma razão.
Mais uma vez, o durão que havia quase desistido da vida e perdido a esperança encontra um pupilo, no caso, uma pupila, que, depois de uma certa resistência para conquistá-lo, devolve-lhe o sal da vida e o brilho nos olhos.
Do lado da discípula, alguns clichês também. De origem humilde, vinda da província, arrastando uma família com mil problemas, graças ao afinco e à dedicação - e ao talento, lógico - vai galgando degrau a degrau, tanto na confiança do mestre quanto na própria consagração (aqui, como lutadora de boxe).
Além da novidade do gênero (mulher-lutadora e não homem-lutador), Clint Eastwood, para seguir na análise técnica e dramática, quebra seu personagem em dois: além de si próprio, convoca Morgan Freeman, para ser uma espécie de "ego-auxiliar" e/ou narrador em off. Clint ou Frankie, na história, ainda lê Yeats e arrisca alguns rudimentos em gaélico.
Mas a grande virada, naturalmente, não está nesses pequenos detalhes dentro da trajetória de uma batalhadora - novamente, Hillary Swank, Maggie, la boxeuse.
O ineditismo reside no acidente que a mocinha sofre, morrendo na praia, à beira do título mundial, e na reviravolta que isso provoca. Nem é necessário acrescentar que se está falando de paralisia e, mais a fundo, de eutanásia (tema agora na moda).
A lição que fica é que, por não ser Clint Eastwood um diretorzinho de meia tigela, podemos desfrutar de emoção na dose certa - sem sentimentalismos e sem forçação de barra. Uma aula que, infelizmente, nem todos os cineastas conseguem assimilar.>>>

Million Dollar Baby Clint Eastwood (entrevista)
William B. Yeats


A ROSA DO MUNDO
Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.
Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.
Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.



(tradução: José Agostinho Baptista
ERRÁTICO


Paul Celan


As noites fixam-se
sob o teu olho. As sílabas
recolhidas pelos lábios — belo,
silencioso círculo —
ajudam a estrela rastejante
no seu centro. A pedra,
um dia perto da fronte, abre-se aqui:
ante todos os
espalhados
sóis, alma,
estavas, no éter.
( tradução: Claudia Cavalcanti )

domingo, fevereiro 20, 2005

Pier Paolo Pasolini
LADRÕES
Uma vez regressando a tua mãe,
sentirás ainda sobre os teus lábios
os beijos que te dei como um ladrão?
Ah, ladrões os dois! Não estava escuro no prado?
Não roubávamos aos choupos e à sombra
na tua bolsa?
Os coelhos ficaram sem erva esta tarde,
e os teus lábios roubados
beijam a primeira estrela...
De "A melhor juventude" 1941-1953.
ABRO A MANHÃ
Abro a manhã de uma branca
segunda-feira,
a janela, e a rua indiferente
rouba entre a sua luz
e os seus rumores a minha presença
infrequente entre as folhas.
Este mover-me... em dias
totalmente fora do tempo
que pareciam consagrados a mim,
sem regressos nem paragens,
espaço todo cheio do meu estado,
quase prolongamento da minha existência,
do meu calor, do meu corpo......e se truncou...
Estou noutro tempo, num tempo que dispõe
as suas manhãs nesta rua que eu olho,
desconhecido,
nesta gente resultado de uma outra história .
Pier Paolo Pasolini
trad.fernando greg.
POESIA
"...A poesia é como o vento,
ou como o fogo, ou como o mar.
Faz vibrar árvores, roupas,
abrasa espigas, folhas secas,
acalenta no seu mar agitado os objectos que
dormem sobre a praia..."


José Hierro (Espanha, 1922 - 2002)
É tão efémero este rumo pelo vento talhado,
sustendo a tua sombra neste anseio contido,
sustendo a tua sombra no ápice a que chamas
infinito,
onde o dorso resplandecente possuído pelos teus dias será o ecrã deste jogo de vultos.
Aí o teu ser regressará vagarosamente com as cinzas com que proclamavas o tempo.





Fernando Gregorio
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

“Viagens contra a Indiferença” de Fernando Nobre


Obra vai ser apresentada no próximo dia 22 de Fevereiro

No próximo dia 22 de Fevereiro, pelas 18:00 horas, o Auditório da Universidade do Algarve – Pólo de Portimão vai ser o palco para o lançamento do livro “Viagens contra a Indiferença” de Fernando Nobre.


Esta é uma iniciativa que se insere no âmbito das actividades da Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes, em colaboração com os Movimentos de Cultura da Universidade do Algarve. O autor, Fernando Nobre, é o rosto da AMI, associação que organizou e fundou há 20 anos e que actualmente preside. Envolvido no movimento humanitário e em situações de guerra e fome, o livro relata histórias de muitas das missões realizadas, assinalando os 25 anos do autor ao serviço de causas humanitárias.



No prefácio escrito por Mário Soares pode ler-se: “Fernando Nobre tem tomado partido consciente contra a pobreza que é imprescindível erradicar até 2020, segundo recomendação da ONU. A pobreza também não é uma fatalidade. É obra da avareza e da inconsciência dos homens, como a guerra. Está hoje ao alcance da Ciência a erradicação da pobreza. Só é necessário a vontade política para o conseguir (....)


“ Refira-se que os direitos de autor do livro “Viagens contra a Indiferença” revertem a favor da AMI.

in;Diário on-line Algarve
Georg Trakl


CALMA E SILÊNCIO



Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.


No cristal azul
Mora o pálido Homem,
o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.


Mas sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.


De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.




(tradução: Cláudia Cavalcante)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

EL NUEVO LIBRO DE CARLOS FUENTES

FUENTES CONTRA BUSH

"La insolencia pierde a los hombres y a las naciones"En este siglo XXI, prolongación nefasta del XX en lo que a violencia se refiere, asistimos a la imposición por parte de una sola potencia, Estados Unidos, de sus intereses a todo el mundo. Ante la humanidad se alza un enorme peligro, dado el mal uso que de su inmenso poder está haciendo George Bush, un presidente de dudosa legitimidad electoral y reducidas facultades intelectuales quien, rodeado además de un círculo 'petropoder', no duda en desdeñar el orden internacional cuando éste se opone a sus fines. Aunque resulte increíble, la presidencia de Bush es tan ciegamente provinciana pero tan globalmente perversa que parece capaz de anteponer sus intereses electorales a corto plazo a la racionalidad global a largo plazo. Hoy más que nunca, la política exterior de los Estados Unidos se funda sólo en sus intereses nacionales, y el Derecho Internacional corre riesgo de convertirse en una mera utopía.
Esta obra reúne las reflexiones de Carlos Fuentes sobre la crisis provocada por la Administración de George W. Bush entre agosto de 2000 y julio de 2004. En sus páginas, el autor aboga por la necesidad de restaurar un orden jurídico internacional, multilateral y digno de confianza, dedicado a resolver los conflictos políticos mediante la negociación diplomática, y los sociales mediante la solidaridad internacional.
Discurso de entrega de los Premios Ortega y Gasset Pronunciado por Carlos Fuentes en Madrid el pasado 8 de mayo de 2003, durante la vigésima edición de los Premios Ortega y Gasset, en él, el escritor destaca el papel que ha desempeñado el periodismo en el conflicto de Irak.


LEE EL TEXTO COMPLETO AQUÍ (en PDF)
Juan Goytisolo, a propósito de la concesión a Carlos Fuentes del Premio Príncipe de Asturias

“Carlos Fuentes es una de las grandes figuras de la literatura mundial, uno de los novelistas más importantes de nuestras letras, como lo demuestran sus obras, desde La muerte de Artemio Cruz a Cristóbal Nonato, pasando por esa obra maestra que es Terra nostra (...) Coincido con Fuentes en la defensa del mestizaje, en el rechazo a las culturas aisladas y cerradas. En Iberoamérica es mucho más fácil que en Europa defender algo que la Historia ha revelado como evidente: que, frente a la idea de una pretendida homogeneidad europea, la evolución de Europa está marcada por el mestizaje”.

LEER EL ARTÍCULO AQUÍ (en PDF)

terça-feira, fevereiro 15, 2005

DYLAN THOMAS

ESTE LADO DA VERDADE


Para Llewlyn


Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.

O bom e o mau, duas maneiras
De caminhar em tua morte
Entre as triturantes ondas do mar,
Rei de teu coração nos dias cegos,
Se dissipam com a respiração,
Vão chorando através de ti e de mim


(tradução: Ivan Junqueira)

domingo, fevereiro 13, 2005

há-de flutuar uma cidade...



há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado



por vezes uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém



e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão



anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)



um dia houve que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto
AH, PODER SER TU, SENDO EU!

RUY BELO

Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar.
VICTOR HUGO
Jolies femmes
On leur fait des sonnets, passables quelquefois ;
On baise cette main qu'elles daignent vous tendre ;
On les suit à l'église, on les admire au bois ;
On redevient Damis, on redevient Clitandre ;
Le bal est leur triomphe, et l'on brigue leur choix ;
On danse, on rit, on cause, et vous pouvez entendre,
Tout en valsant, parmi les luths et les hautbois,
Ces belles gazouiller de leur voix la plus tendre :
- La force est tout ; la guerre est sainte ;
l'échafaud Est bon ; il ne faut pas trop de lumière ;
il faut Bâtir plus de prisons et bâtir moins d'écoles ;
Si Paris bouge, il faut des canons plein les forts.
-Et ces colombes-là vous disent des paroles
A faire remuer d'horreur les os des morts.
(Juillet 1870)
ET de Cozinha por Indigo


Moro no primeiro andar, altura que não mata, mas quebra a perna. Assim, quando a batida na janela me despertou, achei que fosse assalto. Corri para o banheiro e me tranquei. Não ouvindo mais nada, decidi voltar para a cama. Peguei o alienígena dentro do meu quarto, parado em frente à estante. Segurava um livro do Moacyr Scliar. "Contos Reunidos". Um alienígena mesmo, braços finos, baixinho, olhão, cabeção, branquelo - padrão básico. Virou-se para mim e franziu a testa.
- Curte? Like him? - perguntou, levantando o livro.
Ganhei aquilo num amigo secreto. Li três ou quatro contos, no máximo. Não respondi a pergunta. Primeiro, por não ser de sua conta; segundo, por desconfiar que se tratava de pergunta retórica. Ele passou a palma da mão pelo restante dos títulos. Parecia capturar informações. Aproximou-se do meu diário. Nenhum zíper na região do pescoço, a pele estava perfeitamente esticada. As pernas eram finas demais. Não era fraude.
- May I help you? É... posso te ajudar? - perguntei, finalmente.
- No, it's ok; nem, na boa - respondeu o alienígena.
- What? Como é?
- It won't take long. É rápido.
Era miúdo, acredito que num corpo-a-corpo eu o destruísse sem dificuldade, mas senti as pernas petrificadas.
Ele, inabalável, não se incomodava com a minha presença. Subiu na cadeira de roupas e espichou o pescoço para enxergar os livros da última prateleira. Nenhum interessou, voltou ao diário. Depois de examinar a capa, deu uma risadinha e balançou a cabeça. Começou pelo fim, nas páginas onde colo fotografias.
- Excuse-me, that is private! - disse, com autoridade.
Ele ignorou, colou a palma da mão sobre a página e fechou os olhos para sugar a informação. Insisti:
- Dá licença que isso é particular! - agora com a voz mais trêmula.
Quis arrancar o caderno dele, mas ainda não conseguia me aproximar. O espanto inicial começava a passar, dando lugar para pavor puro. Ele deve ter pressentido o grito histérico que eu armava, pois bufou e jogou o diário em cima da cama. Tampou os ouvidos.
- There! Pronto! - disse - Vai, grita!
Cruzou os braços e me encarou. Estava nu em pêlo. Dei um rápido passo em direção à cama, puxei a pontinha do cobertor e me enrolei. Saltei para trás. Ele deu um passo em minha direção. Eu corri para a cozinha e bati a porta. Eu sabia que algum dia isso ia acontecer. Quantas vezes fiquei olhando para o céu, tentando enxergar algo. Pura curiosidade mórbida, um desejo imbecil de que alguma coisa extraordinária acontecesse comigo.
Eu desejei ser abduzida, acreditava possuir os quesitos necessários, sendo uma pessoa calma e observadora, cética e perspicaz. Escutei cinco toques compassados contra a porta, faltando os dois últimos dois. O espertinho queria mostrar que entendia alguma coisa de cultura ocidental. Completei as duas notas e corri para a lavanderia.
- Hey! What's up? Ê! E aí!? - ele gritou.
- Get out! Vai embora! - respondi. - I want to talk! Quero conversar!
O desaforado queria bater um papinho. Ele me tomava por idiota. Na opinião dele, eu não passava de uma terráquea. Sei muito bem como esses bichos pensam. Ele fazia o tipinho educado e evoluído, a fim de ganhar minha confiança. Assim que eu relaxasse, ele me abduziria. Peguei um inseticida e abri a porta da cozinha.
- Sit down! - eu disse, puxando uma cadeira. Sei passar por evoluída, quando eu quero. Ofereci-lhe um chá.
- Aceita um chá? - perguntei.. - Care for some tea?
- Yes, please, obrigado.
Sem largar o inseticida, peguei uma frigideira e coloquei uma xícara de óleo para esquentar. Ele observava o ambiente, sentadinho de pernas cruzadas, o pé girando. Olhei para fora da janela, tudo na mais perfeita ordem. Eu era a única com visita. Na rua, nenhuma nave-espacial estacionada.
- Você veio sozinho? Travelling alone?
- Yep! Só!
- Cadê a nave? Where's your ....?
- Spaceship? - ele completou.
- É! Cadê?
Ele não respondeu. Deu uma piscadela e apontou para a frigideira. Estava em ponto de fritura. Sorri, agradecendo o toque. Servi-lhe numa xícara grande, acrescentei três colheres de pimenta, misturei bem e para finalizar, três baforadas de inseticida. Ele tossiu ao inspirar o veneno, mas não reclamou. Limpou com a ponta da toalha as lágrimas que escorreram dos seus olhos. Joguei um rolo de papel-toalha em sua direção. Bateu na sua cabeça, mas ele percebeu que foi acidente. Rimos juntos. Puxei uma cadeira e me sentei à sua frente.
- No, thanks - disse empurrando a xícara na minha direção.
- Obrigado.
- Por que, uai!? Why? - perguntei, indignada e meio ofendida também.
- Prefiro chá. I prefere tea.
Sem se levantar da cadeira ele projetou seu braço fino até a pia e despejou o conteúdo da xícara pelo ralo. Gargalhou, sacudindo os ombros numa descontração descabida. A situação ficou um pouco tensa. Enquanto eu colocava água de verdade para ferver, olhei de rabo de olho e vi que sentado, ele exibia uma pequena pança. Assobiava um sambinha, como se nada tivesse acontecido. Eu subestimei sua inteligência e nem por isso ele reagiu. Seria ele um pamonha?
- Você pensa em ter filhos? Do you consider having kids? - perguntou.
Ah, mas quanto a isso ele podia tirar o cavalinho da chuva! Tudo bem que eu não tinha namorado, mas com alienígena não.
- Tá maluco!? Forget it!
- Why not? Mas por quê? - ele perguntou.
- Não e não! Never! Açúcar ou adoçante?
- Adoçante.
Desconsiderei e lhe servi três colheres de açúcar. Aquilo estava indo longe demais. Adoçante! Bebemos em silêncio. Ele sorriu no final, agradecendo com um sinal de cabeça. Levantou-se e se espreguiçou, bateu uma palma. Era agora! Passei a mão no inseticida e corri até o lado oposto da cozinha. Eu seria abduzida. Uma nave espacial apareceria na janela. Pensei rapidamente no que levar, por onde fugir, talvez fazer meu último pedido ou direito a um telefonema. Deixei cair o cobertor, joguei a cabeça para trás e fechei os olhos:
- Take me! Leve-me. Estou pronta.
- Hum? Hã?
Talvez não ele, mas seus enormes subalternos entrariam pela janela a qualquer momento e me arrastariam para dentro da nave. Não conseguia abrir os olhos, preferia não ver os monstros. - Well, lady. I've got to go. Dona, eu já vou nessa. Abri os olhos e encarei o bicho. Ele não estava entendendo nada.
- Eu vou! I'm going! - eu disse.
- Don't bother. Não tem necessidade, querida.
Então o alienígena se aproximou, pegou as minhas mãos e nelas depositou um beijinho frio e gosmento. Agradeceu o chá e pulou pela janela. Nunca mais nos vimos. Acho que essas coisas não acontecem duas vezes na vida de uma pessoa. Mas por via das dúvidas, em noites de lua cheia, eu deixo o Moacyr Scliar no parapeito da janela.
ÍNDIGO
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(*) O conto ET de Cozinha faz parte do livro de contos A Festa da Mexerica (Hedra, 2003).


Publicado no site http://www.paralelos.org

sábado, fevereiro 12, 2005

Para os que como eu gostam de observar passarada!!
Visitem "A Rocha",saindo da 125 se vão na direcção de Lagos, quando tiverem a entrada para a Mexilhoeira à vossa direita sigam pela estrada da esquerda ,atravessem a linha do comboio (com cuidado!!) e percorram por volta de um quilómetro de terra batida até à Rocha que será encontrada ao lado esquerdo do caminho.(Serão seguramente bem recebidos!!).

Aves invernantes em Portugal

Chapim-rabilongo Aegithalos caudatus

Marcial Felgueiras, Director d'A Rocha Portugal, relata que diversas espécies estão a invernar pela primeira vez na Ria de Alvor, entre as quais o Chapim-rabilongo Aegithalos caudatus, a Trepadeira-comum Certhia brachydactyla e a Carriça Troglodytes troglodytes. Suspeita-se que os violentos fogos florestais dos últimos dois anos (e que resultaram na perda de 80% da floresta e matagal mediterrânicos da Serra de Monchique) forçaram algumas aves para mais perto da costa.
GUNTER GRASS



Nobel da Literatura expõe em Almancil


O Centro Cultural de São Lourenço, em Almancil, vai apresentar, de 19 de Fevereiro a 31 de Março, um exposição de Günter Grass. Vão ser exibidas uma série de 70 litografias que ilustram os contos do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen por ele escolhidos. Contos como: "O Patinho Feio", "O Soldadinho de Chumbo" e "A Pequena Sereia" conhecidos mundialmente, poderão ser vistos através do traço do Prémio Nobel da Literatura Nasceu em Danzigue, Polónia, em Outubro de 1927. Recebeu em 1999 o Prémio Nobel da Literatura. Actualmente vive na Alemanha, em Lübeck. Escreveu, entre outros, os seguintes livros: O Tambor (que deu origem a um filme); A Ratazana; O Linguado; O Gato e o Rato; Maus Agoiros; Uma Longa História; e o Meu Século. O artista está ligado ao Centro Cultural desde o seu início, sendo as apresentações das suas obras (livros, desenhos, gravuras, esculturas, etc.) ao público português sempre feitas neste local dedicado à arte contemporânea. "Der Schatten" (A Sombra) é o título do novo livro de Grass e também desta exposição, patente ao público da 10:00 horas às 19:00 horas, todos os dias, excepto às segundas-feiras.



28 de Janeiro de 2005 13:02
in:Diário on-line Algarve

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

As palavras limitavam o espaço,
onde as mãos se alongavam
procurando a superfície do desejo.
Era desmedida a batalha travada
pela vanidade do corpo.
E o silêncio sitiava o tempo
onde tudo o que era dito

era possuído pelas defesas
feridas pelo tempo.
O sonho não mais respondia.

Numa ferida inacabada
havia-se perdido.


fernando gregorio

O seguinte conto de Edagar Allen Poe, foi retirado do site http://www.bestiario.com.br

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

FEDERICO GARCIA LORCA



ODE AO REI DE HARLEM

Com uma colher,arrancava
os olhos dos crocodilos
e batia no traseiro dos macacos.
Com uma colher.



Fogo de sempre dormia
nos pedernais e os escaravelhos embriagados
de anis olvidavam o musgo das aldeias.



Aquele velho coberto de setasia
no lugar onde choravam os negros
enquanto rangia a colher do rei
e chegavam os tanques de água podre.


As rosas fugiam pelos fios das últimas
curvas do ar,
e nos montões de açafrão
os meninos magoavam esquilinhos
com um rubor de frenesi manchado.



É preciso cruzar as pontes e chegar
ao rubor negro para que o perfume do pulmão
nos golpeie as fontes com o seu vestido de quente pinha.


É preciso matar o ruivo vendedor de aguardente,
todos os amigos da maçã e da areia,
e é necessário dar com os punhos fechados
nas pequenas judias que tremem cheias de borbulhas,
para que o rei de Harlem cante com a sua multidão,
para que os crocodilos durmam em longas filas
sob o amianto da lua,e para que ninguém duvide da infinita beleza
dos espanadores, raladores, os cobres e caçarolas das cozinhas.



Ai, Harlem! Ai, Harlem! Ai, Harlem!



Não há angústia comparável a teus olhos oprimidos,
a teu sangue estremecido dentro do eclipse escuro,
a tua violência rubra surda-muda na penumbra,
a teu grande rei prisioneiro com um traje de porteiro!
*


Tinha a noite uma fenda e quietas salamandras de marfim.
As moças americanas levavam meninos e moedas no ventre,
e os rapazes desmaiavam na cruz do espreguiçamento.



Eles são.
Eles são os que bebem o whisky de prata
perto dos vulcões e tragam pedacinhos de coração,
pelas geladas montanhas do urso.



Aquela noite o rei de Harlem com uma duríssima colher
arrancava os olhos dos crocodilos
e batia no traseiro dos macacos.
Com uma colher.


Os negros choravam confundidos entre guarda-chuvas
e sóis de ouro, os mulatos esticavam chiclete,
ansiosos por chegar ao torso branco,



e o vento empapava espelhos
e quebrava as veias dos bailarinos.
Negros, Negros, Negros, Negros.


O sangue não tem portas na vossa noite de pernas para o ar.




Não há rubor.
Sangue furioso por baixo das peles,
vivo na espinha do punhal e no peito das paisagens,
sob as pinças e redomas da celeste lua de câncer.




Sangue que busca por mil caminhos mortes esfarinhadas
e cinza de nardo,céus hirtos em declive, onde as colonias de planetas
rodam pelas praias com os objectos abandonados.



Sangue que olha lento com o rabo do olho,
feito de espartos espremidos, néctares de subterrâneos.
Sangue que oxida o alísio descuidado num rasto
e dissolve as mariposas nos vidros da janela.



É o sangue que vem, que virá
pelos telhados e açotéias, por todas as partes,
para queimar a clorofila das mulheres loiras,
para gemer ao pé das camas ante a insonia dos lavabos
e esfacelar-se numa aurora de tabaco e baixo amarelo.




É preciso fugir,fugir pelas esquinas e encerrar-se
nos últimos andares, porque o tutano do bosque
penetrará pelas frinchas para deixar na vossa carne
um leve rasto de eclipse e uma falsa tristeza de luva desbotada
e rosa química.
*


É pelo silêncio sapientíssimo
quando os camareiros e os cozinheiros
e os que limpam com a língua as feridas dos milionários
buscam o rei pelas ruas ou nos ângulos do salitre.




Um vento sul de madeira, oblíquo no negro lodo,
cospe nas barcas partidas e crava pergos nos ombros;
um vento sul que leva colmilhos, girassóis e alfabetose
uma pilha de Volta com vespas afogadas.



O olvido estava expresso por três gotas de tinta
sobre o monóculo,o amor por um só rosto invisível à flor da pedra.


Medulas e corolas compunham sobre as nuvens
um deserto de talos sem uma única rosa.
*


À esquerda, à direita, pelo Sul e pelo Norte,
levanta-se o muro impassívelpara o topo,
a agulha da água.



Não busqueis, negros, sua greta para achar a máscara infinita.
Buscai o grande sol do centro como se fôsseis uma pinha zumbidora.
O sol que se desliza pelos bosques certo de não encontrar uma ninfa,
o sol que destrói números e não cruzou nunca com um sonho,
o tatuado sol que baixa pelo rio e muge seguido de crocodilos.


Negros, Negros, Negros, Negros.



Jamais serpente, nem zebra, nem mula
empalideceram ao morrer.
O lenhador não sabe quando morrem as clamorosas
árvores que corta.
Aguardai sob a sombra vegetal de vosso rei
que cicutas e cardos e urtigas turbem e postrem as açotéias.




Então, negros, então, então,podereis beijar com frenesi
as rodas das bicicletas, pôr pares de microscópios nas tocas dos esquilo
e dançar, finalmente, sem dúvida,
enquanto as flores eriçadas
assassinam o nosso Moisés quase nos juncos do céu.





Ai, Harlem disfarçada! Ai, Harlem,
ameaçada por gentes de trajes sem cabeça!
Chega-me teu rumor,chega-me teu rumor
atravessando troncos e ascensores,




através de lágrimas cinzentas,onde flutuam teus automóveis
cobertos de dentes, através dos cavalos mortos
e dos crimes diminutos, através de teu grande rei desesperado,
cujas barbas chegam ao mar.





publicado no livro: "Federico Garcia Lorca - Obra Completa"traduzido por William Agel de MeloEditora Universidade de BrasíliaLivraria Martins Fontes Editora


JULIO CORTAZAR

el perseguidor


Yo te pido, Señor, que esta existencia
vista su faz de nieve no posada.
Quiero verla hecha luz -ya deslumbrada
en su afán de alumbrar-albo de esencia
singular.
Que no sea su presencia
un número en la cifra inacabada
Dale una voz, Señor; no le des nada
sino voz para alzar toda su ciencia.
Yo te pido un latido del futuro
en que el mundo comprenda que ha tenido
fragmentos de su Dios en un poeta:
dale voz y valor frente a lo oscuro
luego, déjalo solo, que ha nacido
para surcar el viaje hecho saeta.

Quarteto Axabeba e Media Luna Flamenca no Algarve



V Festival de Música Al-Mutamid


Integrado no V Festival de Música Al-Mutamid, o Quarteto de música medieval Axabeba vai actuar no próximo dia 11 de Fevereiro, às 21:30 horas, no Cine Teatro Louletano.

O Festival prossegue no dia seguinte, 12 de Fevereiro, também às 21:30 horas, no Auditório Municipal de Albufeira, com a actuação do grupo Media Luna Flamenca.


A 19 de Fevereiro, às 21:30 horas, no Centro Cultural de Lagos, sobe ao palco o Quarteto de música medieval Axabeba



No dia 26, às 21:30 horas, na Igreja Matriz, em Silves, actuam os Media Luna Flamenca,


Este festival de música pretende recordar o rei poeta Al-Mutamid, filho e sucessor do rei de Sevilha Al-Mutadid.

Muhammad Ibn Abbad (Al-Mutamid) nasceu em Beja (1040) e foi nomeado governador de Silves com apenas 12 anos, onde passou a juventude.
Em 1069 acedeu ao trono de Sevilha, o reino mais forte da Al-Andalus, após a queda do Califato de Córdoba. Em 1088 foi destronado pelos almorávidas, refugiando-se em Aghmat, a sul de Marrakech, onde viria a falecer em 1095.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Charles Baudelaire

L`Albatros



Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.



A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.



Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!



Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.