do dicionário mínimo
Fernando Fábio Fiorese Furtado
anágua
A madureza me surpreende com a palavra anágua.
O dicionário diz do étimo taino, ainda recendendo a Antilhas; diz da travessia do Atlântico, quando as tormentas do espanho - enaguas - para o português exigiram reparos na proa e o lançar ao mar o astro do plural.
A moda diz de uma peça obsoleta ante o império da transparência, do corpo-vitrine, sem vincos, menos fusco que fátuo fulgor. Desvendado, desventrado, dissipado.
Na infância se escondia sob as saias que jamais levantei. Ou acenava do varal, com rendas e aromas. Cet clair objet du désir nunca estava no rol de roupas sujas. Não se misturava com panos de frato, fronas e toalhas.
Na madureza, restou apenas a prósdia líquida da palavra. Um mundo animado de anas e águas, de avas e vagas. Vocábulo de tanque, de cisterna.
sombra
Está ali desde sempre. Quando convida é para soletrar fantasmas.
Sem ela não existia árvore, pássaro, casa, nuvem, verão.
Semela, a musa mirrava.
Aprecia o espelho, o palrar dos signos, os hóspedes sem pressa; comfabula com a a febre, com a fuga e o açúcar; acompanha os gestos daquela moça depois de nua.
Pode-se tornar portátil e atravessar a tarde nas mãos de uma dama antiga.
De todas, prefira a física.
queda
Foi uma esfoladura no joelho de Deus. Ainda quando decai, nos domina.
Fernando Fábio Fiorese Furtado
anágua
A madureza me surpreende com a palavra anágua.
O dicionário diz do étimo taino, ainda recendendo a Antilhas; diz da travessia do Atlântico, quando as tormentas do espanho - enaguas - para o português exigiram reparos na proa e o lançar ao mar o astro do plural.
A moda diz de uma peça obsoleta ante o império da transparência, do corpo-vitrine, sem vincos, menos fusco que fátuo fulgor. Desvendado, desventrado, dissipado.
Na infância se escondia sob as saias que jamais levantei. Ou acenava do varal, com rendas e aromas. Cet clair objet du désir nunca estava no rol de roupas sujas. Não se misturava com panos de frato, fronas e toalhas.
Na madureza, restou apenas a prósdia líquida da palavra. Um mundo animado de anas e águas, de avas e vagas. Vocábulo de tanque, de cisterna.
sombra
Está ali desde sempre. Quando convida é para soletrar fantasmas.
Sem ela não existia árvore, pássaro, casa, nuvem, verão.
Semela, a musa mirrava.
Aprecia o espelho, o palrar dos signos, os hóspedes sem pressa; comfabula com a a febre, com a fuga e o açúcar; acompanha os gestos daquela moça depois de nua.
Pode-se tornar portátil e atravessar a tarde nas mãos de uma dama antiga.
De todas, prefira a física.
queda
Foi uma esfoladura no joelho de Deus. Ainda quando decai, nos domina.
jornal Panorama-Brasil

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home