observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

quinta-feira, março 17, 2005

Será o corpo o sinal cintilante
ou a fonte tépida desejosa
das minhas mãos?

Vizinho ao precipício existe
um cristal ocupado,
pela presença magoada
do inacabado.

Completo-me no interior
desta morna delicadeza,
é este o único país que habito.

Porque junto dos abismos
jazem interrogações,
elas fazem afluir as réplicas
onde a infâmia e o medo aguardam.

Limito-me onde a agressão
cessa,
começo-me no interior da incerteza.



Fernando Gregório

terça-feira, março 15, 2005

SOBRE OS CLÁSSICOS


A discussão é recorrente. Sempre que o assunto é literatura, muita gente quer saber a respeito da influência das obras clássicas na formação do leitor. A propósito disso, criou-se inclusive o termo “romance de formação” a fim de designar as obras que seriam capitais tendo em vista o desenvolvimento intelectual. E não há como negar: a leitura dos clássicos é, por excelência, uma experiência a ser testada por todos aqueles que querem aprofundar seu conhecimento livresco. Pensando bem, arrisco dizer mais: trata-se de uma experiência tão rica que sua profundidade não se restringe apenas àqueles que buscam conhecimento e/ou erudição. É também uma forma de diversão franqueada a todos aqueles que decidirem (re)descobrir os limites do prazer da leitura.Para o bem e para o mal, no entanto, o significado da palavra clássico assusta mais do que atrai os leitores de uma maneira geral. Com efeito, há quem não se considere preparado para encarar obras do calibre de Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ou Crime e Castigo, de Dostoievski, posto que são livros cuja complexidade (quem leu sabe disso) está acima da leitura que fazemos do mundo real – quando digo isso, me refiro aos jornais e às revistas.





Ora, é justamente por ser mais complexa que a literatura clássica se mantém como tal, perene. As temáticas, os cenários e o contexto podem até parecer datados (uma situação como a apresentada por Henrik Ibsen em Casa de Bonecas seria impensável hoje, mas, ainda assim, a peça resiste como obra magistral), assim como sua linguagem muitas vezes é rebuscada ou arcaica, porém é seu páthos, o incômodo por ela provocado à primeira vista, que faz com que esses livros permaneçam e se renovem a cada leitura. Por outro lado, há aqueles que, malgrado essas dificuldades, encaram as obras e simplesmente não encontram aquela qualidade que a alta literatura supostamente teria, desestimulando este leitor a encarar outras obras “recomendadas pela crítica”. Nesse caso, frustração não é o sentimento mais adequado, mas sim o prazer. Umas das riquezas da literatura é que sua interpretação nunca é a mesma para todos. Cada um faz sua leitura de acordo com o momento em que vive e com o mundo que o cerca. Como exemplo, posso não sentir a mesma reação que um amigo teve ao ler a Odisséia, porém isso não impede que eu venha a aproveitar o livro num outro momento.Dois autores abordaram essas idéias de uma forma aprofundada, cada qual à sua maneira.






Para Italo Calvino, a leitura dos clássicos é imprescindível porque “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha de dizer”. Ou porque “um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos sobre si, mas continuamente as repele para longe”. Essas são duas das 14 razões que o autor expõe no ensaio Por que ler os clássicos, um livro que pode ser considerado um clássico sobre o assunto. De uma maneira ainda mais sentimental e personalista, o crítico francês Roland Barthes explica que o prazer do texto está justamente na variedade de impressões que um clássico pode provocar no leitor, desde a repulsa até a admiração, porém um sentimento único e inalienável no que se refere à experiência de cada um.De minha parte, posso afirmar que vivi um pouco de cada uma dessas versões no que se refere às minhas experiências com os clássicos. Houve uma época, logo quando comecei a me interessar por literatura, que os meus únicos interlocutores eram... os livros. Mais precisamente, a Enciclopédia Britânica, cujo último volume é um índice de assuntos com guia de estudos. Desse modo, autores como Kafka, Bergson e Kierkgaard apareceram naturalmente. E estes me levavam a outros autores, proporcionando uma descoberta fantástica a cada leitura. Tudo isso a partir de um verbete. Tempos depois, esse autodidatismo deu lugar para um outro tipo de educação, agora mais sentimental. E foi graças a professores e a amigos que conheci obras tão fascinantes quanto inesquecíveis.RelatosÀ primeira vista, o dia 31 de Dezembro de 2000 seria um réveillon fora do comum. Sem o agito dos outros anos, uma vez que, no dia seguinte, eu iria trabalhar como se fosse outro dia qualquer. Para piorar a situação, eu me recuperava de uma gripe fortíssima. Sozinho em casa, segui assistindo os filmes que havia alugado até que, por acaso, vi na estante o volume do Dom Casmurro. Comecei a ler sem qualquer pretensão, até porque, como muita gente, eu já havia lido esse livro no colegial. Ocorre que, desta vez, havia algo de diferente naquele romance. Alguns anos depois, as passagens se tornaram menos rebuscadas e mais requintadas, fazendo com que eu me reparasse em inúmeros detalhes que eu não havia notado na minha primeira leitura “adolescente”. E então uma leitura descompromissada tornou-se uma das mais significativas de toda uma trajetória intelectual.




Pude compreender como Machado de Assis tratou, num romance que narrava um triângulo amoroso, de questões tão subjetivas quanto fundamentais não somente para a sociedade da época, mas também para o Brasil dos nossos dias. Tomando mais uma vez o exemplo de Ítalo Calvino, atestei como a leitura de um clássico traz interpretações novas a cada instante, como se fosse, de fato, uma nova leitura.Dois anos mais tarde, após indicações incessantes de um colega, tive a mesma impressão de ler um livro inesquecível, ao encarar, pela primeira vez, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Foi no Carnaval de 2003, quando, novamente, fiquei em São Paulo. Folia melhor não houve. Tenho até hoje a sensação de ter sido absorvido pela história e, até hoje, me recordo de passagens inteiras como se acabara de ler o livro há pouco. As frases iniciais, que vez por outra reaparecem ao longo da história, como se iniciassem a obra outra vez, assim como o nome das personagens que se repetem. Detalhes que fazem a diferença e determinam a obra como peça fundamental a saga dos Aureliano Buendia, revisitando os acontecimentos da América Latina de maneira nostálgica, apaixonada e, sobretudo, literária.Mais do que uma obrigação, a leitura dos clássicos deve ser encarada como uma outra forma de educação. De novo, não se trata apenas de erudição e diletantismo, mas também é o caminho que se tem a trilhar para conhecer mais este verdadeiro “universo” do ser humano. E a base de conhecimento desse novo mundo não é outro senão a literatura.


Fabio Silvestre CardosoSão Paulo, 8/2/2005
Acção de formação na Biblioteca Municipal de Loulé



A Biblioteca Municipal de Loulé vai receber, de 26 a 29 de Abril, a acção de formação “Leitura/leituras da Literatura para a Infância e Juventude”.

A iniciativa destina-se a educadores de infância, professores do ensino básico, animadores culturais e profissionais de bibliotecas e tem como principais objectivos divulgar a literatura infanto-juvenil e salientar o papel dos mediadores de leitura.
O programa desta acção de formação engloba os seguintes temas: o mediador; narração oral e leitura de conto; do livro de imagem ao livro ilustrado; interligação imagem/texto/projecto gráfico; livros de ficção e não-ficção; a função do real e a necessidade do imaginário; o livro informativo e as suas diferentes gradações; as biografias; a poesia; e a animação do livro.


A acção de formação decorre das 10:00 às 13:00 horas e das 14:30 às 17:30 horas. Para participar é necessária uma pré-inscrição.

sábado, março 12, 2005

"Ode" assinala Dia Mundial da Poesia em Loulé
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O Dia Mundial da Poesia, que se assinala no próximo dia 21 de Março, vai ser celebrado, em Loulé, com um espectáculo de música e poesia, denominado "Ode", a realizar-se na Biblioteca Sophia de Mello Breyner Andresen, pelas 21:30 horas. Este evento pretende levar até ao público a interferência das linguagens musical e poética, no cruzamento dos sons com as palavras. Os intérpretes propõem "um momento de diálogo, de troca, de confronto, de aprendizagem, onde as palavras e os silêncios dos poetas";
Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Holderlin, António Ramos Rosa, T.S. Elliot, Ruy Belo, entre outros,
escutam-se ou calam-se por entre acordes e sons.
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"Ode" é um projecto de Aires Ramos e Sandro William Junqueira.

Aires Ramos é músico e compositor. É formado na Escola de Jazz do Porto, onde também leccionou durante sete anos. Fez parte integrante de projectos musicais com Pedro Abrunhosa e Rita Ribeiro.

Sandro William Junqueira, designer gráfico, actor e escritor, é um dos fundadores do grupo de teatro "A Gaveta". Editou recentemente o seu primeiro livro, "É preciso este silêncio", pela editora Amores Perfeitos.

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A entrada nesta iniciativa é gratuita para o público em geral.
O RIO


Guio-me por este rio, pois afastei-me dessa arma que dorme no interior das ferramentas pelos homens desfraldadas.
O meu caminho é esta longa frase que se solta de um sono sem fim, onde o desconhecido me afastou das praças de uma glória distante que marcaram os dias que se me tornaram alheios.
Seguirei o rio, seguirei este rio seguro, este rio que transportará os cadáveres de um passado que sempre regressa cheio de pressa, e é essa a pressa das palavras que já foram ditas. A pressa de um tempo rápido hasteado próximo do vinho da juventude. Seguirei o seu curso tal como as folhas de Outono que aguardam a noite sobre o meu corpo, sobre os poentes de um domingo deserto que nada disto apreende.
Perto da foz amarei o que recordo, amarei a água que finalmente me transporta até ao lugar onde uma lua abarrotada de água me dirá que o futuro não é senão esta corola cheia de nada.


Fernando Gregório

quarta-feira, março 09, 2005

Agora bem:
Quem deixará mergulhar sua mão
buscando o tributo à rapariga abandonada.
O frio pagará. O vento pagará.
A chuva pagará. Pagará o trovão.

Alejandra Pizarnik
trad. Fernando greg.
INVERNO
Precisa como a geada, a noite exacta,
Árvores: alegorias dos caminhos.
A luz, coalhada, que este silêncio dita.
Todo o meu ser rejeita o seu destino.



Pere Gimferrer

terça-feira, março 08, 2005

Texto do escritor brasileiro
Fabricio Carpinejar


Sou desconfiado com o Dia Internacional da Mulher. Como sou cético com o Dia dos Namorados. Nessas datas, esquecemos de pensar para convencionar gestos e gastos. É um cuidado protocolar para não magoar a corrente, a enxurrada de manifestações, os compromissos festivos. Um dia de rosa deslocada dos espinhos. E qual é o espinho? Continuar comparando a mulher com o que o homem faz ou deixa de fazer. A mulher ganhou terreno no trabalho e assume cargos antes dirigidos por homens. A mulher conduz ônibus. A mulher joga futebol. A mulher apita jogos. A mulher comenta esportes. Só falta correr na Fórmula 1? Existe o hábito machista de dizer que a mulher se emancipou ou evoluiu tendo como referência a ocupação dela em atividades ditas masculinas, que na verdade nunca foram masculinas Ser dona de uma empresa e ser dona de um estádio não aumentam a cotação da mulher. Mulher não tem cotação, porém valor. Sempre foi política mesmo quando não podia se candidatar. Não depende de uma cota para ser votada. De uma chance para ser vista. De um amor para ser compreendida. De um emprego para dizer sua opinião. A mulher é incomparável desde sempre. Mania de moldar à mulher por uma realidade masculina. E o que elas fizeram antes dos homens, não conta? E o que os homens fizeram a partir dela, não conta? Não sei, não sei, é uma chatice tremenda falar de gênero quando não somos capazes de mudar a própria rotina intelectual. Mulher tem poder, que a autoridade masculina demorará a entender. Poder e autoridade são distintos. Poder é o que se conquista naturalmente, autoridade é uma adaptação social, provisória e efêmera. Meus filhos não me procuram quando estão doentes. Procuram a mãe. A confiança que emana dela vem do cuidadoso detalhe, a sinfonia corrigida à mão, o abraço que protege e conforta. A mulher oferece a intimidade da percepção, a capacidade periférica de enxergar do lado de dentro para fora. É atenciosa com o que não oferece utilidade. O homem segue a vaidade de seu consumo, importando-se com o domínio, não com a intimidade. Quantas vezes já vi um homem apresentar orgulhoso sua namorada como uma roupa exclusiva e cara para provocar inveja? A mulher tem a necessidade de ser feliz, o homem parece que tem a obrigação de ser feliz. Felicidade não se herda.

in; http://www.carpinejar.com.br

quinta-feira, março 03, 2005

MICROCONTO de Raúl Brasca


Todo o tempo futuro foi pior


Ontem à noite suplantou as balas com que o metralharam e fugiu da polícia entre a multidão.

Escondeu-se na copa de uma árvore, partiu-se o ramo e acabou espetado numa cerca de ferro. Soltou-se do ferro, adormeceu numa lixeira e foi aprisionado por uma pá mecânica. A pá libertou-o, caiu sobre um tapete rolante e foi esmagado por toneladas de lixo. O tapete pô-lo diante de um forno, ele não quis entrar e começou a retroceder.

Deixou o tapete e passou à pá, deixou a pá e foi para a lixeira, deixou a lixeira e espetou-se na cerca, deixou a cerca e escondeu-se na árvore, deixou a árvore e procurou a polícia.

Ontem à noite mostrou o peito às balas com que o metralharam e caiu como qualquer um quando o enchem de chumbo: completamente morto.


(Do livro Todo tiempo futuro fue peor, Thule Ediciones, Barcelona.)

Extraído do site da revista "Periférica".

quarta-feira, março 02, 2005


Lagos dedica o mês de Março ao teatro
Eunice Muñoz participa num debate e há propostas para todos os fins-de-semana do mês As comemorações do Dia Mundial do Teatro


- a 27 de Março - começam em Lagos já na próxima sexta-feira, dia 4, às 17:30 horas, no Auditório do Centro Cultural, com a realização de uma conferência subordinada ao tema "Teatro: Testemunhos de uma vida", com a participação de Eunice Muñoz, um debate moderado por Luís Zagalo.


No mesmo dia e no mesmo local, às 21:30 horas, sobe ao palco a peça "Pijama para seis", de Marc Camolleti, pela Companhia Portuguesa de Comédia.

Sinopse: Sendo uma "comédia de enganos", rege-se pelos ingredientes costumeiros desta forma de teatro: um casal com os respectivos amantes reúne-se numa casa de campo para passar o fim-de-semana. Para aumentar a confusão é contratada uma empregada com o mesmo nome da amante de uma das personagens. O espectáculo repete-se no sábado, à mesma hora e local.


No dia 12, sábado, às 21:30 horas, no Auditório do Centro Cultural de Lagos, vai à cena o trabalho "Talvez Camões", pela Companhia do Chapitô. Sinopse: A peça reinventa a vida do famoso poeta português Luiz Vaz de Camões, autor de "Os Lusíadas".
No século XVI os Deuses gregos encontram-se mergulhados numa profunda depressão... haviam sido esquecidos.
A Humanidade está, na sua maioria, convertida ao monoteísmo. Invejoso da popularidade da Bíblia, Júpiter envia Baco à terra para conceber um filho, Camões. Os deuses pretendiam que este escrevesse um famoso livro, enaltecendo os Deuses do Olimpo e de como ajudaram Vasco da Gama na sua viagem marítima rumo ao Oriente.


No dia 18, sexta-feira, às 18:30 horas, na Praça Gil Eanes, vai haver teatro de rua. "As mil e uma noites", de Pedro Tomé, vai ser representada pelo Teatro Experimental de Lagos.


Sinopse: Três princesas filhas de reis recebem a meio da noite a visita de três Dervixes mendigos, que procuram abrigo. Elas resolvem acolhê-los, sob a condição de não falarem acerca de nada do que os seus olhos vejam. A aparição de duas cadelas negras vais desencadear uma série de peripécias, onde não faltarão magias, encantamentos e... um Génio.


"Kucateile", pelo Teatro Experimental de Lagos, é a proposta para sábado, dia 26, às 21:30 horas, no Centro Cultural


Sinopse: Escondidos nas traseiras de um café, dois homens sonham com um futuro diferente. O dinheiro sujo de um deles poderia apoiar o sonho sujo do outro, mas as suas motivações são bem diferentes. Em comum têm a ignorância e uma total incapacidade de acção. Spiro Scimone, o autor da obra, confronta-nos com uma específica visão de um mundo onde os valores morais e sociais são postos em causa.


A terminar o programa, no dia 31, quinta-feira, às 21:30 horas, no Centro Cultural, realiza-se a peça "Romeiro, Romeiro, Quem és tu? Ninguém", pela Companhia de Teatro "Klassikus"


Sinopse: Neste espectáculo, uma colagem e reciclagem de textos de Almeida Garrett e de Fernando Gomes, a cena passa-se nos claustros do Convento das Madalenas Calçadas, o segundo lar escolhido por religiosas, que ali prestam devoção a Maria Madalena. A presença súbita e inesperada de um homem, um jovem artista, com uma invulgar proposta de trabalho de grupo que as religiosas aceitam com entusiasmo, vai alterar por completo a vida no convento. O claustro transforma-se num palco; as irmãs em actrizes e a Madre Superiora numa encenadora exigente!
Os corredores do convento nos bastidores dum teatro!... uma volta a Garrett em oitenta minutos.
RB/RS
Diário on-line Algarve ,2 de Março de 2005 11:53