Queda
Era uma cidade de luz que ardia na gentileza da tarde.
A sua luz era como o animal aberto das manhãs, o céu era
uma toalha imaculada que cobria a festa que nomeava um mundo onde as palavras ainda não se haviam transfigurado nos grandes felinos alados que procuravam os reinos imaginários, folhas de luz aclamavam as onomatopeias que dariam lugar ao tempo.
Enchiam-se de diamantes os corações de todos os inícios, onde
hemisférios vegetais devoravam a terra numa fecunda loucura, quadris femininos abrasavam os sentidos.
Mas algo de obscuro preparava as suas garras, e um luxo violento maculou a pureza das mãos transformando-as em ininteligíveis crânios.
Nada do que existia foi poupado, respirava-se a beleza sangrenta dos homens que já não o eram, pois passaram a povoar sombras que deles eram distantes.
As palavras ressurgiram então no definitivo da sua própria ambiguidade, abandonando o exacto dos reinos imaginados, as palavras passaram a dizer unicamente o indecifrável, as palavras transformaram-se num logro consentido, num território de trevas e de sussurros ambivalentes.
Todas as imagens habitavam a mácula dos caminhos do
logro, as bandeiras proclamavam os frutos fechados da destruição.
O que não era dito e o que fora dito nem sequer era propriedade da velha serpente que outrora pertencera aos antigos jardins. Era um mal sem nome, um veneno sem rótulo nem designação.
As árvores renderam-se a essa surpreendente e desconhecida voragem.
"A idade antiga foi vencida". Pensaram os homens. No entanto não entendiam que as madrugadas traídas nasciam dos abismos
inaugurados pela irrecuperável distância das sua infâncias.
Fernando Gregório
Era uma cidade de luz que ardia na gentileza da tarde.
A sua luz era como o animal aberto das manhãs, o céu era
uma toalha imaculada que cobria a festa que nomeava um mundo onde as palavras ainda não se haviam transfigurado nos grandes felinos alados que procuravam os reinos imaginários, folhas de luz aclamavam as onomatopeias que dariam lugar ao tempo.
Enchiam-se de diamantes os corações de todos os inícios, onde
hemisférios vegetais devoravam a terra numa fecunda loucura, quadris femininos abrasavam os sentidos.
Mas algo de obscuro preparava as suas garras, e um luxo violento maculou a pureza das mãos transformando-as em ininteligíveis crânios.
Nada do que existia foi poupado, respirava-se a beleza sangrenta dos homens que já não o eram, pois passaram a povoar sombras que deles eram distantes.
As palavras ressurgiram então no definitivo da sua própria ambiguidade, abandonando o exacto dos reinos imaginados, as palavras passaram a dizer unicamente o indecifrável, as palavras transformaram-se num logro consentido, num território de trevas e de sussurros ambivalentes.
Todas as imagens habitavam a mácula dos caminhos do
logro, as bandeiras proclamavam os frutos fechados da destruição.
O que não era dito e o que fora dito nem sequer era propriedade da velha serpente que outrora pertencera aos antigos jardins. Era um mal sem nome, um veneno sem rótulo nem designação.
As árvores renderam-se a essa surpreendente e desconhecida voragem.
"A idade antiga foi vencida". Pensaram os homens. No entanto não entendiam que as madrugadas traídas nasciam dos abismos
inaugurados pela irrecuperável distância das sua infâncias.
Fernando Gregório

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