observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Conto de Nelson Oliveira

retirado do site http://www.bestiario.com.br


Rawet, o solitário caminhante do mundo


Tudo o que há de absurdo no mundo concreto encontra logo um ponto de referência: o sonho. O encadeamento de imagens dessa experiência alucinatória é a metáfora mais antiga que existe para a aleatória sucessão de eventos do cotidiano. Do sonho para a psicanálise: um salto. Apropriando-me da fórmula psicanalítica, diria que a obra de Samuel Rawet é a realização de desejos inconscientes, feita de conteúdos ocultos e inaceitáveis até mesmo para o próprio autor. Isso explicaria a alta velocidade de seu discurso, o hermetismo raivoso de alguns símbolos, o entrechoque de crenças díspares e as diversas ambigüidades — étnica, sexual, profissional — em torno das quais este entrechoque não pára de girar.
Samuel Urys Rawet nasceu em 1929, em Klimontow, aldeia de judeus poloneses. Veio para o Brasil em 1936, aos sete anos, e até os vinte morou no bairro de Leopoldina, no Rio de Janeiro. Apesar do forte interesse por literatura, só começou a escrever na faculdade, na Escola Nacional de Engenharia. Em 1956, quando a José Olympio publicou os Contos do imigrante, Rawet já havia escrito dezenas de peças de teatro, e destruído praticamente todas. Como engenheiro, trabalhou com a equipe de Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Lúcio Costa, na construção de Brasília. Os livros que se seguiram ao primeiro — Diálogo (contos, 1963), Abama (novela, 1964) e Os sete sonhos (contos, 1967) — tiveram editor, mas a partir de 1969 Rawet foi obrigado a publicar do próprio bolso. Assim foi com O terreno de uma polegada quadrada (contos, 1969), Alienação e realidade (ensaios, 1970) e Eu-Tu-Ele (ensaios, 1972), todos de ensaios. Os últimos anos de vida foram os mais solitários, devido ao seu excessivo retraimento, à mania de perseguição e aos constantes conflitos com sua origem judáica. Não se casou, não teve filhos. No final da vida, isolou-se por completo do mundo social. Gostava de percorrer a pé as superquadras de Brasília, hábito que lhe valeu o apelido de o solitário caminhante do planalto. Em 1984, foi encontrado morto na sala de sua casa, vítima de um aneurisma cerebral.
Na minha opinião, o melhor livro de contos de Rawet é Os sete sonhos, sendo este conto especificamente, ao lado de Fé de ofício e Kelevim, os de que mais gosto. Os sete sonhos narra sucessivos saltos, de um plano onírico a outro, dentro de um mesmo e contínuo sono: uma urgente viagem de regresso ao primeiro sonho. No início encontramos o protagonista sentado numa poltrona de vime, observando um moinho movido à água, dentro de uma paisagem ensolarada. A cena é descrita com a precisão de um estrategista e o rigor de um matemático, o que torna inevitável a conclusão de que neste trabalho o Rawet engenheiro colaborou, e muito, com o prosador. O protagonista ergue-se da cadeira, deixa a varanda onde estava, contorna as árvores de uma estrada e se dirige ao moinho. Mas ao se ajoelhar junto a engrenagem que impele a mó, acorda no sexto sonho. “Na mesma posição em que adormecera para sonhar o moinho”. A narrativa adensa-se, tornando-se claustrofóbica, graças à busca incessante, por parte do narrador, dos possíveis nexos entre os sonhos. Após o último salto — espantado, o protagonista percebe que passara pelo primeiro sonho sem sequer notar-lhe o aspecto —, acorda num quarto de hotel, de volta à realidade. Mas no final a realidade inverte-se: andando na rua, um tremor lhe dá a sensação de que ter saído do hotel e estar andando na rua é, talvez, só o princípio “do primeiro sonho de outros sete, de sonhos descendentes, negativos, impregnados de sua ação cotidiana”.
O estrategista e o matemático que há no engenheiro-escritor também participam intensamente dos demais contos da coletânea. Em Kelevim, eles narram a perseguição de uma cidade imaginária — segundo o próprio autor, produto de sua preguiça mental — a um homem “que teimava em viver, para escândalo de todos”. Certamente em resposta à Pasárgada de Manuel Bandeira, a peripécia chega ao fim com uma guinada abrupta do narrador: “Em Kelevim levo uma grande vantagem: não sou amigo de ninguém”. Tão provocativo quanto este, o terceiro conto que mencionei, Fé de ofício, vai mais longe na negação da catarse, essa experiência até certo ponto escapista, como objetivo a ser alcançado por todo texto de ficção: simplesmente não entrega ao leitor um conto acabado, fornecendo-lhe, no lugar, quatro páginas de ruminações e rubricas, anotações e esboços de uma narrativa ainda por ser escrita: “Tenho presentes dois esboços de personagens, e um semi-esboço de cenário, e não sei por que me deva agarrar a alguma convenção de conto, não formulada aliás, e só apresentar a história depois de solver em detalhes os enigmas que personagens e cenários representam.” Mais adiante, o tom descamba para o jocoso: “As duas figuras têm como constante a insanidade mental. A primeira não sabe se é exatamente o cavalo branco de um general famoso ou uma poça d’água; a segunda oscila permanentemente entre os dois sexos, o que talvez provoque a gula de algum psicanalista”. E assim vai. A voz do Rawet ensaísta toma o controle da situação, desautorizando o ficcionista a finalmente dar início ao seu espetáculo de entretenimento. O saldo: um texto bem-realizado, paradigma de tantos outros gerados na faixa de tempo (1970-1990) em que os gêneros se interpenetraram e se confundiram furiosamente: meta-romances feitos de recortes de jornal, de minicontos, de bilhetes e de toda a sorte de elementos não-ficcionais; meta-ensaios feitos de deduções duvidosas e citações falsificadas, com o objetivo de se aproximar mais e mais da realidade pouco ordenada em que vivemos — com o irritante objetivo de provar que a vida é sonho.




NELSON DE OLIVEIRA nasceu em Guaíra (SP), em 1966. Mestre em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, defendendo dissertação sobre os romancistas Campos de Carvalho e António Lobo Antunes. Entre 1998 e 2001 colaborou regularmente, com resenhas de livros, no caderno Prosa & Verso (O Globo), no Caderno de Sábado (Jornal da Tarde) e no Caderno 2 (Estadão). Atualmente colabora no Idéias (Jornal do Brasil), no Pensar (Correio Braziliense), no Rascunho e na revista Bravo!. Publicou "Naquela época tínhamos um gato" (Companhia das Letras, 1998), contos, Finalista do Prêmio Jabuti de 1999; "Os saltitantes seres da lua", (Relume-Dumará, 1997), contos e em 2004 publicará o livro de contos "Sólidos gozosos & solidões geométricas" (Record). Organizou ainda as antologias "Geração 90: os transgressores" e "Geração 90: manuscritos de computador" para a editora Boitempo, em 2001.