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POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

terça-feira, dezembro 21, 2004

O Tímpano e a pupila

Luís Miguel Nava

Num dos pratos o mar,
no outro um rio,
agora que o tempo se desossa,
que as pedras que piso
se me enterram na memória
e os caminhos
se me aguçam
na alma como lâminas,
o pão molhado nas feridas,
o pão ele próprio já também uma ferida,
agora que o tempo,
que já tanto compararam a um rio,
mais não é do que uma leve exsudação
nos muros,
nas mãos, agora que o céu se encrespa
e que pedaços de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve caminho,
a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória,
onde se fundem o tímpano e a pupila.