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POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

sábado, dezembro 18, 2004

Silves II


As viagens familiares de fim-de-semana a Silves tinham por vezes como destino a casa do avô materno, o avô Duarte.
O avô vivia numa casa que distava uns 100 metros ou pouco mais da casa da minha avó paterna a avó Silva. Ao contrário da casa desta, que era uma casa de agricultores, onde se sentia em qualquer sítio o ambiente do campo (vetustos cântaros de azeite, carroças para o transporte do medronho, galinhas e respectivos pintos mais a passarada de meu avô Gregório), embora se situasse no centro de Silves. A casa de meu avô Duarte, era o lar de um industrial de profissão e de um maçon respeitado na sua loja e na região.
O trato com o avô era um trato refinado e distante. Diríamos estar na presença de um aristocrata, havia um distanciamento que nada tinha a ver com a ruralidade da família Silva Gregório. O centro da casa, a por assim dizer “casa das máquinas”, daquela nave encalhada ali junto à Sé de Silves, era a biblioteca. Essa biblioteca situava-se numa espécie de torreão que “desafiava”apesar da diferença de escala, a Sé (a casa da padralhada), como dizia o avô, que era um anticlerical do mais virulento que se possa imaginar. As cruzes estavam proibidas em casa, não se celebravam a Páscoa e o Natal, os domingos não era sagrados pelo avô, que os usava para fazer algum trabalho suplementar no escritório da fábrica de transformação de cortiça, ou nas várias farmácias que possuía, ou mesmo no seu cinema que era o único da cidade.
O avô era uma personagem que me intrigava sobremaneira, sobretudo quando usava polainas e aquela corrente de relógio que pouca gente ainda usava, parecia alguém que tinha saído de uma história qualquer, ou mesmo chegado de uma qualquer cidade distante.
Enquanto o meu pai falava com o sogro, eu fazia uma exploração pelo quintal do avô, quintal esse que era limitado a norte pela velha muralha Almoada do castelo, o objectivo da minha exploração era quase sempre o galinheiro. Era um galinheiro que tinha algo de diferente, é que ao contrário do galinheiro da avó camponesa do lado paterno, as galinhas e os galos não tinham outro fim senão o de morrerem de velhos (se não tivessem o azar de morrer precocemente de uma qualquer maleita), o avô era incapaz de comer os bichos, e então era vê-los já com umas esporas enormes, devido à idade, de tal sorte que os animais mal podiam andar. Punha-me a pensar,”Se a avó Silva aqui estivesse começava logo a magicar sobre a forma de rentabilizar os galaróides, ou de cabidela ou no forno, e a velha galinha já não punha ovos…..? Então, panela com ela!”. Se ainda os pusesse, então, era mais um negócio rentável.
Aquilo de criar bichos com bom milho e bom pão, para depois os deixar morrer de velhos e enterrar (será que havia um cemitério para galinhas………,pensava eu!) ,só podia ocorrer a um industrial maçon, com a cabeça cheia de ideias esquisitas que vinham nos livros que chegavam no comboio de Lisboa. Para a avó Silva era um atentado anti-natura……um caso perigoso, era claro e bom de ver!




Fernando Gregório