MINHA LÍNGUA, SUA LÍNGUA
Paulinho Assunção
todos os dias tomo de assalto o idioma,
eis a minha guerrilha,
dele tudo quero, o novo e o velho,
o sabor e o aroma,
em Portugal ou Macau,
Madeira ou Angola,
em Moçambique ou Guiné-Bissau,
do idioma tudo quero e a ele tudo dou,
palavras antigas que recolho a anzol,
novas palavras ainda larvas,
ainda lêmures,
limbo de vocábulos,
trevas de libélulas,
sóis e luas de palavras,
todas eu quero,
a todas eu me dou,
todas eu ponho qual poria a fruta
entre o céu da minha boca e a língua da sua língua,
qual poria a boca em outra boca,
escrevo-as como quem beijasse e beijaria,
escrevo-as como quem beija,
fricativos beijos, labiais enguias,
escrevo-as como quem procria,
minha língua portuguesa,
minha língua brasileira,
minha angolana língua,
minha dama,
namorada e menina,
festim e banquete da folha em branco
do papel que é barco e é barcarola,
que é caravela,
que é pássaro e é pólen ao vento e à ventania,
minha língua na sua língua,
sua língua na minha língua,
tupi nas águas do Tejo,
banto na foz do Amazonas,
adagas árabes nas consoantes,
concertino de dizeres sefarditas
nos quintais de Minas,
dizeres maxacalis nas ruas de Maputo,
língua,
sua língua,
minha doce fera,
onça, onça latina,
todos os dias tomo de assalto
a minha língua
assim como quem sonhasse,
como quem sonha e sonharia.
(Este poema é dedicado a Francisco José Viegas)
(Este poema é dedicado a Francisco José Viegas)
Paulinho Assunção, 2004

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