Reflexos do quotidiano nas antigas colónias portuguesas;
Um excelente romance.
Muitos anos passados após a independência e o êxodo quase total dos portugueses, Moçambique continua no coração de quem lá viveu. Fazem-se telenovelas como "A Jóia de África" e escrevem-se belos livros como "A Árvore das Palavras" de Teolinda Gersão. São deste livro que recomendo, algumas passagens que ilustram esta página.
"Nada vejo, aqui sentada diante da mesa redonda do café, e no entanto essas coisas longínquas, como os barcos passando, o movimento dos barcos, fazem parte deste minuto, em que tudo esta contido. Rodo a colher no gelado, levo-a devagar a boca. Creme vermelho, de groselha, derretendo. Sabor do Verão. Mais alto, contra o céu, balançarão as acácias. O que penso não tem nitidez, e talvez só uma aproximação inexacta. A vida cabe numa colher de gelado, respira-se, devora-se com a boca.
Tudo acontece agora muito devagar, os barcos tem todo o tempo para partir ou para entrar no porto, as crianças riem, de puro gozo de brincar nas ondas. Devagar, devagar. O tempo é um hálito, um sopro. Não tem nenhuma pressa, demora-se, por momentos parece ficar parado para sempre." (Teolinda Gersão).
"Descemos as ruas, chegamos ao fundo e entramos nas docas, caminhamos ao longo do cais.Esse era, foi sempre, o favorito de todos os passeios. O olhar perdia-se no meio de tudo aquilo, a floresta dos navios, o perfil muito alto dos guindastes e , das grúas, os carris que corriam pelo chão, ao longo de quilómetros, o balanço dos barcos ancorados, o casco negro que ao sabor da ondulação se tomava mais ou menos visivel.
E havia aquele cheiro, nem sequer agradável, mas intenso e familiar, a óleo, a água e a lodo, e os nomes e siglas que nos vinham a memória, também eles familiares de tão ouvidos, Robin, Farrel, Gold Sta1; Lykes, South African, Deutsche, Cotts e outros. Porque esta é uma cidade-porto, uma cidade-cais e é aqui, em frente ao largo estuário, que o seu coração bate mais depressa.” (Teolinda Gersão).
“Mas já de novo em volta a cidade se agita - cresce, multiplica-se como um caleidoscópio. Andaremos pelas ruas, sabemo-las de cor. De algum modo elas estão em nós, como linhas gravadas na palma da mão. Paralelas, perpendiculares geométricas - outras que seguem apenas os seus cursos próprios, como os da água ou do vento.
A cidade é um corpo vivo respirando, o meu, o teu, o dos outros, o do mundo, é uma infinita intersecção de corpos, nos momentos incontáveis do tempo, repetida como as ondas do mar. E é inútil tentar olhá-la, como é inútil olhar as ondas -ainda mal se levantaram e já se desfazem na areia, e também o nosso olhar se desfaz com elas.
Dizem que este Verão vai ser mais quente que no ano passado, anuncias sem levantar os olhos. E para a semana começam saldos sensacionais no Fabião. Sim, é uma cidade ordenada, de linhas regulares. E no entanto não doméstica, nem domesticável - nao se podem domesticar as casuarinas, nem os coqueiros, nem os jacarandás. Nem o capim, nem o mato.” (Teolinda Gersão).
"É verdade que uma certa embriaguez nos assaltava, tomava conta de nós, África entorpecia-nos, sim, entrava dentro de nós como um bruxedo.O mato. Mergulhava-se nele como no mar. E ele envolvia-nos com a sua presença obsessiva - havia de tudo no mato, répteis, pássaros, antílopes, insectos, manchas de vegetação e longos troços desolados. Mas mesmo esses espaços aparentemente vazios eram densos, a vida cercava-nos, no arrulhar da rola, no grito rouco do sapo-boi, no canto enlouquecido da cigarra. Estava lá, na polpa ácida dos frutos, no coração azedo da maçala, no recorte silencioso de bocas, patas, garras invisíveis, estava lá e tocava-nos, doendo, com os dedos aguçados da micaia.” (Teolinda Gersão).
"Havia aquela pérgola, cheia de flores de buganvilia, onde agora estava, havia, por exemplo, o Miradouro eo Caracol que ás vezes gostava de descer a pé, até junto da praia.Era um mar em geral sossegado, com ondas mansas, não azul, como ela julgara antes de o ver, mas de um verde-cinzento, quase cor de chumbo. Podia-se caminhar muito tempo à beira-mar, o passeio era empedrado e largo, e havia a sombra dos coqueiros. Quando a tarde era fresca e a brisa batia na cara, parecia que se podia caminhar até à Costa do Sol sem sentir cansaço, embora fossem uns doze quilómetros ou mais.
Na praia, na maré baixa, as ondas recuavam e deixavam a descoberto uma faixa enorme de areia. Branca, fina. Mas o mar cheirava pouco a maresia. Mais bravo e mais azul e com mais cheiro de mar, era na Macaneta. (Teolinda Gersão).
"Assobiava debaixo das árvores do Xipamanine, caminhando no meio dos rapazes que descarregavam camisas, bonés, bacias de plástico e toalhas de banho, das vendedoras de feitiços sentadas em cima de sacos, de baldes deborcados, de pequenos bancos de madeira.
As mulheres usavam lenços na cabeça, saias e blusas, ou capulanas, amarradas em volta do corpo; os lenços, as capulanas e as blusas tinham desenhos diferentes, e a regra (se tivesse de haver uma regra, mas na verdade não havia) era que tudo combinava com tudo, de modo que todas as combinações de cores e desenhos eram possíveis, e o resultado era surpreendente.
Sobretudo se ele olhasse não só para uma mulher, mas para os grupos de duas ou mais, em que geralmente andavam, e reparasse na mistura que faziam. No conjunto eram um quadro movediço andando." (Teolinda Gersão).