observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

domingo, fevereiro 13, 2005

ET de Cozinha por Indigo


Moro no primeiro andar, altura que não mata, mas quebra a perna. Assim, quando a batida na janela me despertou, achei que fosse assalto. Corri para o banheiro e me tranquei. Não ouvindo mais nada, decidi voltar para a cama. Peguei o alienígena dentro do meu quarto, parado em frente à estante. Segurava um livro do Moacyr Scliar. "Contos Reunidos". Um alienígena mesmo, braços finos, baixinho, olhão, cabeção, branquelo - padrão básico. Virou-se para mim e franziu a testa.
- Curte? Like him? - perguntou, levantando o livro.
Ganhei aquilo num amigo secreto. Li três ou quatro contos, no máximo. Não respondi a pergunta. Primeiro, por não ser de sua conta; segundo, por desconfiar que se tratava de pergunta retórica. Ele passou a palma da mão pelo restante dos títulos. Parecia capturar informações. Aproximou-se do meu diário. Nenhum zíper na região do pescoço, a pele estava perfeitamente esticada. As pernas eram finas demais. Não era fraude.
- May I help you? É... posso te ajudar? - perguntei, finalmente.
- No, it's ok; nem, na boa - respondeu o alienígena.
- What? Como é?
- It won't take long. É rápido.
Era miúdo, acredito que num corpo-a-corpo eu o destruísse sem dificuldade, mas senti as pernas petrificadas.
Ele, inabalável, não se incomodava com a minha presença. Subiu na cadeira de roupas e espichou o pescoço para enxergar os livros da última prateleira. Nenhum interessou, voltou ao diário. Depois de examinar a capa, deu uma risadinha e balançou a cabeça. Começou pelo fim, nas páginas onde colo fotografias.
- Excuse-me, that is private! - disse, com autoridade.
Ele ignorou, colou a palma da mão sobre a página e fechou os olhos para sugar a informação. Insisti:
- Dá licença que isso é particular! - agora com a voz mais trêmula.
Quis arrancar o caderno dele, mas ainda não conseguia me aproximar. O espanto inicial começava a passar, dando lugar para pavor puro. Ele deve ter pressentido o grito histérico que eu armava, pois bufou e jogou o diário em cima da cama. Tampou os ouvidos.
- There! Pronto! - disse - Vai, grita!
Cruzou os braços e me encarou. Estava nu em pêlo. Dei um rápido passo em direção à cama, puxei a pontinha do cobertor e me enrolei. Saltei para trás. Ele deu um passo em minha direção. Eu corri para a cozinha e bati a porta. Eu sabia que algum dia isso ia acontecer. Quantas vezes fiquei olhando para o céu, tentando enxergar algo. Pura curiosidade mórbida, um desejo imbecil de que alguma coisa extraordinária acontecesse comigo.
Eu desejei ser abduzida, acreditava possuir os quesitos necessários, sendo uma pessoa calma e observadora, cética e perspicaz. Escutei cinco toques compassados contra a porta, faltando os dois últimos dois. O espertinho queria mostrar que entendia alguma coisa de cultura ocidental. Completei as duas notas e corri para a lavanderia.
- Hey! What's up? Ê! E aí!? - ele gritou.
- Get out! Vai embora! - respondi. - I want to talk! Quero conversar!
O desaforado queria bater um papinho. Ele me tomava por idiota. Na opinião dele, eu não passava de uma terráquea. Sei muito bem como esses bichos pensam. Ele fazia o tipinho educado e evoluído, a fim de ganhar minha confiança. Assim que eu relaxasse, ele me abduziria. Peguei um inseticida e abri a porta da cozinha.
- Sit down! - eu disse, puxando uma cadeira. Sei passar por evoluída, quando eu quero. Ofereci-lhe um chá.
- Aceita um chá? - perguntei.. - Care for some tea?
- Yes, please, obrigado.
Sem largar o inseticida, peguei uma frigideira e coloquei uma xícara de óleo para esquentar. Ele observava o ambiente, sentadinho de pernas cruzadas, o pé girando. Olhei para fora da janela, tudo na mais perfeita ordem. Eu era a única com visita. Na rua, nenhuma nave-espacial estacionada.
- Você veio sozinho? Travelling alone?
- Yep! Só!
- Cadê a nave? Where's your ....?
- Spaceship? - ele completou.
- É! Cadê?
Ele não respondeu. Deu uma piscadela e apontou para a frigideira. Estava em ponto de fritura. Sorri, agradecendo o toque. Servi-lhe numa xícara grande, acrescentei três colheres de pimenta, misturei bem e para finalizar, três baforadas de inseticida. Ele tossiu ao inspirar o veneno, mas não reclamou. Limpou com a ponta da toalha as lágrimas que escorreram dos seus olhos. Joguei um rolo de papel-toalha em sua direção. Bateu na sua cabeça, mas ele percebeu que foi acidente. Rimos juntos. Puxei uma cadeira e me sentei à sua frente.
- No, thanks - disse empurrando a xícara na minha direção.
- Obrigado.
- Por que, uai!? Why? - perguntei, indignada e meio ofendida também.
- Prefiro chá. I prefere tea.
Sem se levantar da cadeira ele projetou seu braço fino até a pia e despejou o conteúdo da xícara pelo ralo. Gargalhou, sacudindo os ombros numa descontração descabida. A situação ficou um pouco tensa. Enquanto eu colocava água de verdade para ferver, olhei de rabo de olho e vi que sentado, ele exibia uma pequena pança. Assobiava um sambinha, como se nada tivesse acontecido. Eu subestimei sua inteligência e nem por isso ele reagiu. Seria ele um pamonha?
- Você pensa em ter filhos? Do you consider having kids? - perguntou.
Ah, mas quanto a isso ele podia tirar o cavalinho da chuva! Tudo bem que eu não tinha namorado, mas com alienígena não.
- Tá maluco!? Forget it!
- Why not? Mas por quê? - ele perguntou.
- Não e não! Never! Açúcar ou adoçante?
- Adoçante.
Desconsiderei e lhe servi três colheres de açúcar. Aquilo estava indo longe demais. Adoçante! Bebemos em silêncio. Ele sorriu no final, agradecendo com um sinal de cabeça. Levantou-se e se espreguiçou, bateu uma palma. Era agora! Passei a mão no inseticida e corri até o lado oposto da cozinha. Eu seria abduzida. Uma nave espacial apareceria na janela. Pensei rapidamente no que levar, por onde fugir, talvez fazer meu último pedido ou direito a um telefonema. Deixei cair o cobertor, joguei a cabeça para trás e fechei os olhos:
- Take me! Leve-me. Estou pronta.
- Hum? Hã?
Talvez não ele, mas seus enormes subalternos entrariam pela janela a qualquer momento e me arrastariam para dentro da nave. Não conseguia abrir os olhos, preferia não ver os monstros. - Well, lady. I've got to go. Dona, eu já vou nessa. Abri os olhos e encarei o bicho. Ele não estava entendendo nada.
- Eu vou! I'm going! - eu disse.
- Don't bother. Não tem necessidade, querida.
Então o alienígena se aproximou, pegou as minhas mãos e nelas depositou um beijinho frio e gosmento. Agradeceu o chá e pulou pela janela. Nunca mais nos vimos. Acho que essas coisas não acontecem duas vezes na vida de uma pessoa. Mas por via das dúvidas, em noites de lua cheia, eu deixo o Moacyr Scliar no parapeito da janela.
ÍNDIGO
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(*) O conto ET de Cozinha faz parte do livro de contos A Festa da Mexerica (Hedra, 2003).


Publicado no site http://www.paralelos.org