observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

sábado, novembro 27, 2004

Requerimento
Ao Exmº Senhor Ministro da Cultura.


Tendo conhecimento das políticas de apoio comunitário ao abate dos meios de criação/produção, que no parecer da EU, produzem em volume excessivo os seus respectivos produtos, tal como no caso dos produtores de suínos, que passarão a contar com apoio pecuniário pelos porcos não produzidos, como no sector das pescas, em que os armadores beneficiam de apoio monetário pelo abate das embarcações de pesca de cerco à sardinha, venho desta maneira e assumindo as minhas responsabilidades de escrevinhador e estragador de papel, pedir um subsídio pelo abate da minha caneta e do meu computador.É sabido que as livrarias estão a abarrotar de novos títulos, sendo que praticamente já não se pode circular nas mesmas, tal é a profusão de “novidades.”É igualmente do conhecimento de Vª Excelência o estado lastimoso da floresta portuguesa, fustigada por sucessivos anos de devastadores incêndios e por verdadeiras hordas de profícuos escritores da mais variada sorte e especialidade. Venho assim, desta maneira, requerer a aplicação da legislação europeia que, em boa hora, poderá salvar a Europa, não só do excesso de predação dos mares e da inflação da oferta de presuntos, como poderá salvar a cultura dos emplastros que inundam de maneira feroz as estantes e os corredores das livrarias.Saiba o senhor ministro que o requerente possui qualidades que se enquadram verdadeiramente na filosofia da política do abate de certos meios de trabalho. Saiba que toda a minha vida se pautou pelo evitar consciencioso do excesso de produção e logo pelo evitar do excesso de trabalho.Desde pequeno, e ao contrário do primeiro-ministro do governo de vossa excelência, cultivei com afinco a arte da sesta, dormindo, não só depois do almoço, assim como fazendo longos preparativos para a sesta antes da hora do almoço (revelando um indiscutível zelo pela performance da subsequente sesta).No entanto, senhor ministro, nos últimos anos aconteceu-me uma desgraça, pois convenci-me de que queria ser escritor. A partir desse momento, não só comecei a descurar as artes do aperfeiçoamento da sesta, como comecei a gastar papel em grandes quantidades. Pior ainda, coloquei nas livrarias (poucas felizmente), algumas ignóbeis obras ditas literárias, contribuindo assim para o verdadeiro engarrafamento de obras “literárias”, que actualmente acontece nas livrarias de todo o país.Estou seguro do deferimento de Vossa Excelência ao meu requerimento, já que dessa maneira todos ganharemos. A floresta perderá um predador, as livrarias terão mais espaço nos armários e, não menos importante, a arte da sesta e das longas horas de permanência horizontal no sofá voltarão a ganhar um cidadão que no passado sempre dedicou a essas nobres actividades um apego incondicional.Seguro do seu deferimento


Fernando Gregório