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POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

quinta-feira, novembro 25, 2004

DIÁRIO DE UM TÓXICOMANO

Não sinto os meus passos, mas sei que atravesso um espaço que me parece distante. Levito. Não canto, nem sei fazê-lo, não quero fazê-lo, estou longe, estou muito longe.Se me avistam, é puro engano, pois a minha presença é absolutamente virtual. Existo na não existência………habito-me, e é tudo. Eventualmente poderia dizer:-Sou neste momento e só neste momento o perecível de um instante.Nada mais para além disso, nada mais, só este momento sem tempo, este espaço construído à minha medida. Não, o que me cerca não me coexiste, o meu corpo é só uma peça secundária. Diluí-me no eixo do não sentido. Sou pois só isso, uma dissolução morna de um observador distante, cujos passos roçam o observado, existo no eixo de um caleidoscópio que ultrapassou o que poderia ser a minha vontade, contudo a minha vontade não existe em mim, o que resta da vontade é agora só matéria observável. Sou um entomologista ébrio, que sorri perante o afogamento da sua mais bela colecção de insectos.Não posso dizer “eu sou “; Posso sim dizer, “cercam-me”e digo-o com o sorriso do suicida nos lábios. Desfruto este cerco como algo potencialmente destruidor.É doce esse sentimento, porque levito para além da dor, conheço os mecanismos da dor, conheço os seus desenlaces, são-me indiferentes. Divirto-me de certa maneira ao observar os seus jogos. Gumes de navalhas inofensivas, entre as nuvens do entardecer. Um fim de dia sem tempo, na ambiguidade de uma luz que me é desinteressante, que unicamente toca o meu olhar, como se um dedo acariciasse inutilmente a minha retina. Sou pois indiferente, à minha maneira venci a dor. Sou um espectador sentado para além da plateia que reage aos espectáculos pelo agrado ou desagrado. Vivo o que pode ser um segundo, ou um dia, não tenho certezas. Isso basta-me.
posted by fernando gregório @
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