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POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

sábado, novembro 27, 2004

O meu deserto

Tenho um deserto preso na ponta da caneta, não é um facto surpreendente pois já vi os melhores oradores exibindo magníficos territórios por desbravar no interior das suas bocas.
Não se tratam de fenómenos, mas sim de velhos hábitos. Como aquele que recusava qualquer tipo de viajem porque via permanentemente o Kilimanjaro projectado sobre a porta da sua casa. Coisas assim são o dia a dia de bastantes anónimos, não se tratam de videntes ou adivinhos mas sim de gente normal e corrente.
Conheci igualmente uma criança que transportava permanentemente um rio na extremidade do olhar. Na escola ela podia ver as cachoeiras que eram de todos desconhecidas.
Na minha rua habita há algum tempo uma senhora que traz ocasionalmente pela mão o Oceano Atlântico, podendo desta maneira visitar com alguma frequência a sua filha que vive em Nova Iorque.
Cá por mim fico muito contente com o meu deserto, pois sempre que fico retido demasiado tempo no trânsito, puxo da caneta e escrevo uma carta sem endereço.
Nesses dias deito-me muito feliz, porque tenho a certeza de que ao acordar, serei dono do mais belo oásis da minha cidade.