Desventuras de um bibliófilo em período natalício.
A quadra natalícia é o pesadelo dos viciados na arte de bem observar as estantes das Livrarias. Refiro-me aos bibliófilos profissionais ou os que para lá caminham.
Nós os guardadores desses templos, por vezes administrados por gente que podia perfeitamente estar a vender batatas ou grelos, sentimo-nos por vezes incomodados pelo facto de um livro ser só mais “um objecto vendável” . O bibliófilo consagra na sua discreta vigilância um papel semelhante às antigas vestais.
Não sei se estão a compreender, mas o bibliófilo olha para os livros com o respeito que se deve ao “Fogo Sagrado”.
Ele toca nos livros de uma maneira claramente diferenciada. Pegar num volume de Mussil ou de Hesse , não é a mesma coisa que tomar o peso do papel desaproveitado num livro com o titulo, “Marioscas e Cristãs”ou “Eu conheço uma estrela de rock-e ele não me liga”.Apesar de tudo, estes volumes tornam em geral a exploração do bibliófilo mais estimulante,(é como se fossem as lianas a cortar para poder chegar ao mais aromático sândalo das obras de Joyce ou de Ernesto Sábato), as estes obstáculos naturais, já o bibliófilo está habituado, como bom e persistente explorador.
O pior é a invasão em período natalício. Gente que vem aos magotes perguntando-se entre si no meio da algazarra: “Tu achas que ele gosta disto? Será que já leu? E se comprássemos um manual de cozinha tradicional do Gabão???”
Com coisas destas o verdadeiro amigo do livro começa claramente a descompensar e a perguntar-se “Acho que vão perguntar se vale a pena comprar 2 quilos de policiais”.Tal pensamento ultrapassa a heresia , sendo que de seguida o traumatizado amigo do livro começa de imediato a medir os passos entre a estante a que pretende inutilmente aceder ,(está frente à mesma um individuo que é como uma parede com cabeça, pernas e braços) e a porta de saída.
Finalmente decide-se pela retirada e sai tropeçando na fila que espera que lhes embrulhem os livros comprados por atacado em papéis coloridos com fitinhas vermelhas e estrelinhas douradas. Finalmente chega à rua, fuma um cigarro e decide procurar em casa um tal livro que está lá, mas que tem a certeza que não vai encontrar.
fernando gregório
A quadra natalícia é o pesadelo dos viciados na arte de bem observar as estantes das Livrarias. Refiro-me aos bibliófilos profissionais ou os que para lá caminham.
Nós os guardadores desses templos, por vezes administrados por gente que podia perfeitamente estar a vender batatas ou grelos, sentimo-nos por vezes incomodados pelo facto de um livro ser só mais “um objecto vendável” . O bibliófilo consagra na sua discreta vigilância um papel semelhante às antigas vestais.
Não sei se estão a compreender, mas o bibliófilo olha para os livros com o respeito que se deve ao “Fogo Sagrado”.
Ele toca nos livros de uma maneira claramente diferenciada. Pegar num volume de Mussil ou de Hesse , não é a mesma coisa que tomar o peso do papel desaproveitado num livro com o titulo, “Marioscas e Cristãs”ou “Eu conheço uma estrela de rock-e ele não me liga”.Apesar de tudo, estes volumes tornam em geral a exploração do bibliófilo mais estimulante,(é como se fossem as lianas a cortar para poder chegar ao mais aromático sândalo das obras de Joyce ou de Ernesto Sábato), as estes obstáculos naturais, já o bibliófilo está habituado, como bom e persistente explorador.
O pior é a invasão em período natalício. Gente que vem aos magotes perguntando-se entre si no meio da algazarra: “Tu achas que ele gosta disto? Será que já leu? E se comprássemos um manual de cozinha tradicional do Gabão???”
Com coisas destas o verdadeiro amigo do livro começa claramente a descompensar e a perguntar-se “Acho que vão perguntar se vale a pena comprar 2 quilos de policiais”.Tal pensamento ultrapassa a heresia , sendo que de seguida o traumatizado amigo do livro começa de imediato a medir os passos entre a estante a que pretende inutilmente aceder ,(está frente à mesma um individuo que é como uma parede com cabeça, pernas e braços) e a porta de saída.
Finalmente decide-se pela retirada e sai tropeçando na fila que espera que lhes embrulhem os livros comprados por atacado em papéis coloridos com fitinhas vermelhas e estrelinhas douradas. Finalmente chega à rua, fuma um cigarro e decide procurar em casa um tal livro que está lá, mas que tem a certeza que não vai encontrar.
fernando gregório

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