MONÓLOGO DO ESCRAVO
Não serei eu como tu igual em tudo, não seremos nós iguais? Os dois nascemos e crescemos muito perto, os dois respiramos e caminhamos pelas mesmas ruas e vamos aos mesmos bares, e pomo-nos tristes ou alegres por motivos semelhantes, e temos parecidos interesses e parecidos medos, os teus desejos e os teus fracassos não são muito diferentes dos meus.
Mas não, já não sou como tu em tudo. Se falas eu escuto-te, ou se não quero escutar-te vou-me e deixo que te ouçam os outros.
E segues respirando e caminhando pelas nossas ruas e encontramo-nos nos mesmos bares, e pôes-te triste ou alegre. Mas se sou eu quem fala, tu escutas-me e a seguir decides que ninguém deve escutar-me, e a única forma de assegurar-te de que assim suceda é que eu já não respire mais nem caminhe livre pelas nossas ruas, nem volte a ter interesses, nem sequer medos.
Só me permites o medo em relação a ti. Decides que eu não exista.
Não somos iguais, enquanto ainda estiver vivo, nem o seremos depois de eu morrer, não seremos nem mesmo quando tu tiveres morrido. Tu és e serás o meu tirano, e eu terei sido teu escravo.
Javier Marias
Mas não, já não sou como tu em tudo. Se falas eu escuto-te, ou se não quero escutar-te vou-me e deixo que te ouçam os outros.
E segues respirando e caminhando pelas nossas ruas e encontramo-nos nos mesmos bares, e pôes-te triste ou alegre. Mas se sou eu quem fala, tu escutas-me e a seguir decides que ninguém deve escutar-me, e a única forma de assegurar-te de que assim suceda é que eu já não respire mais nem caminhe livre pelas nossas ruas, nem volte a ter interesses, nem sequer medos.
Só me permites o medo em relação a ti. Decides que eu não exista.
Não somos iguais, enquanto ainda estiver vivo, nem o seremos depois de eu morrer, não seremos nem mesmo quando tu tiveres morrido. Tu és e serás o meu tirano, e eu terei sido teu escravo.
Javier Marias

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