observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

quinta-feira, novembro 11, 2004

O FADO EM ALVOR


Sabia eu que o fado é imensamente popular na vila de Alvor. Durante os dez anos que lá vivi constatei que durante o fim-de-semana, dois ou três restaurantes da vila, só pelo facto de apresentarem uma fadista (Quase sempre vinda de Lisboa, e nem sempre de qualidade, mas acompanhada pelo “choro” da guitarra portuguesa), não só enchiam as casas, como chegavam a ter fila à porta.
Também sabia que por vezes grupos de pescadores cantavam desgarradas “à capela” no espaço da lota junto ao cais. Essas desgarradas seguem em geral o modelo da tradição poética das terras do Sul, podendo-se por vezes escutar momentos de pura diversão, já que as quadras são a mais das vezes de sátira, caricaturando os costumes e as idiossincrasias de cada um e de uma maneira bem-humorada.
Mas ontem quando me encontrava junto ao cais fazendo fotografia com
alguns alunos do Clube de Foto da escola, tive contacto com o fado de Alvor no seu estado mais genuíno. Comecei por ouvir uma voz de fadista (por sinal de muito boa qualidade), que vinha de um dos armazéns usados pelos pescadores para guardar as suas artes de pesca, depois de me aproximar deparei com este quadro; Uma velha mulher sentada no chão cantava o fado enquanto iscava o aparelho de pesca, dispondo em seguida os anzóis ao longo da “moldura” do aparelho, enquanto fazia isto, a sua vós elevava-se num fado “à capela” cuja letra falava de “um rapaz que percorria as ruas da vila e que ninguém sabia o que procurava”, entretanto o velho pescador ao lado ia muito lentamente “empatando”novos anzóis às linhas do aparelho.
Eu cá por mim não sei o que o tal rapaz do fado procurava……., mas fiquei no momento com a certeza que eu próprio tinha encontrado o pouco que ainda resta da alma dos pescadores do Sul. Fiquei a conhecer o que poderiam ter sido as vozes dos cantos fenícios, gregos, cartagineses e sarracenos que cruzaram durante séculos estas costas soalheiras ,tão generosas para os Homens, que vinham do Mediterrâneo.

Fernando gregorio