observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

quarta-feira, outubro 13, 2004

MÁCULA



MÁCULA Era uma cidade de luz que ardia na gentileza da tarde.
A sua luz podia ser o animal totalmente aberto das manhãs
onde o céu era como uma toalha imaculada cobrindo a festa que dava nome ao mundo.
As palavras ainda não se haviam transformado nos grandes felinos alados
que procuravam os reinos ainda não nomeados, folhas de luz exaltavam as onomatopeias do inexistente.
Enchiam-se de diamantes os corações de todos os inícios.

Hemisférios vegetais devoravam a terra numa fecunda loucura, coxas ardentes e os quadris femininos abrasavam os sentidos.
Foi então que chegou o momento em que um luxo violento maculou a pureza das mãos transformando-as em indecifráveis crânios calcinados.
Nada do que existia foi poupado, respirava-se a beleza sangrenta dos movimentos dos homens que já não o eram.
Finalmente apareceram os iademas que desfraldavam a loucura insensata de uma qualquer futura glória.
As palavras surgiram no definitivo da sua própria ambiguidade, dizendo o que não se podia adivinhar.
As palavras eram já um logro consentido num território de sombras e de sussurros
ambivalentes.

Todas as imagens habitavam a mácula dos negros caminhos da mentira.
Todas as bandeiras proclamavam os frutos da destruição.
O que não era dito e o que fora dito nem sequer pertencia à velha serpente que outrora
habitara os jardins.
Sim, era um mal sem nome, um veneno sem rótulo nem designação.
As próprias árvores rendiam-se a uma estranha e desconhecida voragem.
Haviam capitulado as madrugadas.
fernando gregorio