PALESTINA!!
SÓ VENDO,SE ACREDITA!!
Rafah A Última Fronteira da Palestina Domingo, 02 de Janeiro de 2005
%Alexandra Lucas Coelho
Como no seu quarto entravam muitas balas, a velha Salma - nascida no tempo em que israelitas e palestinianos eram dois povos sem Estado - foi dormir para a sala interior, a mais afastada da rua.
Mas não adiantou muito. "Até a dormir passam balas sobre a nossa cabeça", diz ela, passando a mão sobre a cabeça, e esticando-a depois para uma das paredes da sala interior: "Está a ver o buraco?"
O buraco tem o tamanho de uma bola de ténis e na parede em frente há outro buraco igual que atravessa a parede para o quarto seguinte que na parede em frente tem outro buraco igual. Foi por aí que a bala entrou, à altura do peito de um adulto, sem que portanto três paredes a detivessem. Calibre pesado.
Em todas as divisões da casa de Salma há buracos de balas, grandes e pequenos. As fachadas exteriores são típicas de Rafah, cimento em bruto com centenas de furinhos de metralhadora.
A casa de Salma é a última antes da fronteira com os colonatos israelitas. Da varanda (onde não vai), no quarto (onde não dorme), ela vê o mar ao fundo. O mar é dos colonos.
Nem o Mediterrâneo sobrou a Rafah, que fica no fundo da Faixa de Gaza, no fundo da Palestina, no fundo de todas as estatísticas (emprego, educação, saúde, habitação).
Rafah é o fim, o beco sem saída, a última fronteira. Cento e cinquenta mil palestinianos (um terço dos quais crianças) cercados de arame farpado por todos os lados menos um, a estrada que vai para o Norte da Faixa de Gaza.
A Sul está o Egipto, em frente os colonatos, atrás Israel. E entre Rafah e o Egipto, entre Rafah e os colonatos, entre Rafah e Israel, é terra devastada, sem casas, sem árvores, cortesia dos "bulldozers" israelitas. Fosso, zona-tampão, "no man's land". Em solo assim raso não se ocultam ameaças à segurança do Estado hebraico.
A anciã Salma - que tem o cabelo branco e o lenço branco das anciãs palestinianas, e as rugas que uma portuguesa mais velha que ela não teria - tinha quatro anos quando na sua terra um dos povos sem Estado ficou para trás. Era o dela. Foi em 1948.
O êxodo para a estreitíssima Faixa de Gaza (então sob domínio egípcio) começou aí, quando centenas de milhares de palestininos foram forçados a abandonar as casas, tornando-se refugiados na sua terra. Em 1967, Israel ocupou Gaza, e Rafah foi partida em duas, com metade a ficar do lado egípcio. Continua a haver famílias divididas em Rafah, mas a terra de ninguém que hoje existe na fronteira já não permite o cenário dos primeiros anos de ocupação, quando os familiares matavam saudades através do arame farpado.
Na próximo domingo, Rafah vai dar a sua contribuição para eleger o primeiro Presidente da era pós-Arafat. Resta saber como, neste cerco contínuo.
Dizer que da Cidade de Gaza a Rafah (ou seja, de uma ponta a outra da Faixa) são cerca de 40 quilómetros, não quer dizer nada. Nos territórios ocupados, as distâncias contam-se em horas - variáveis.
Por exemplo, nesta quinta-feira de manhã cedo, 18 de Novembro, esses 40 quilómetros para Rafah demoraram uma hora e meia - nada mau.
Ao fim da tarde, os mesmos 40 quilómetros de volta estenderam-se por quatro horas e meia, noite dentro - poderia ser pior (toda a noite).
O eixo desta variação é o "checkpoint" central da Faixa de Gaza. Fica junto ao cruzamento mais crítico: aquele onde a estrada dos judeus (que vêm de Israel e vão para os colonatos de Gush Katif) sobe em viaduto para passar por cima da estrada dos palestinianos (que circulam na vertical, entre Norte e Sul).
Altamente patrulhado pelas tropas israelitas, este "checkpoint", nos seus momentos maus, significa filas intermináveis (desde os velhos táxis às ambulâncias, passando por toda a espécie de veículos pessoais e comerciais), completamente paralisadas durante horas. Um pesadelo para quem tem de fazer a viagem diária ou regularmente, sobretudo em dias pouco amenos. No Verão sufoca, no Inverno transborda.
Esta quinta-feira transborda. Choveu de noite, hesitou de madrugada e às nove da manhã cai uma água torrencial na lenta travessia até Rafah. Não se vê a estrada, só vagas cor de barro a subir. Os carros vão meio submersos, alguns atolam-se. Passa lixo a boiar.
Vencido o "checkpoint", segue-se Khan Yunis, a outra grande cidade-campo de refugiados no Sul da Faixa. Há um cheiro putrefacto, a esgoto.
E enfim Rafah, numa manhã diluviana.
A água vai pelas ruas, caudalosa e suja. Um bando de rapazes corre para se refugiar, de chinelas e calças enroladas até aos joelhos. Há velhos encostadas a telheiros e beirais, carros abandonados. Num mural às cores, um tigre, um macaco, uma zebra e uma girafa têm as patas sujas de lama.
"Era o Zoo, agora está vazio", explica Ahmed, o nosso guia. "Há quatro meses, quando os israelitas cercaram Rafah, cortaram a água e a electricidade e os tanques esmagaram alguns animais. Houve uns roubados, outros fugiram. Seis tigres foram vistos junto à fronteira com o Egipto."
Neste cenário biblíco, um pensamento para o destino dos seis tigres. Terão sido abatidos? Confundidos na noite com militantes do Hamas? Escapado para o Sinai?
As ruas com cada vez mais casas demolidas sucedem-se à medida que nos aproximamos da zona de fronteiras - Egipto, de um lado, colonatos do outro.
Prédios pontilhados com buracos de balas, quarteirões inteiros arrasados. Uma parede de pé, com um cobertor pendurado, a pingar. Um quarto de pé, sem tecto, sem porta, sem casa. Tendas na lama. Gente debaixo de placas de zinco, de plásticos, à espera que o temporal passe. Jorros de água saindo de tubos, de canos rotos. Uma bicicleta torta mas ágil, zut, zut, zut, a atravessar um baldio pantanoso.
Já se vislumbram as torres de vigia dos colonatos, do outro lado do arame farpado. É a zona das últimas casas de Rafah. Vêm-se muitas estufas. Mas ao contrário das estufas dos colonatos (reluzentes, geométricas, cuidadas), nestas há ferro à vista e plásticos arrancados. Vítimas, também, das demolições regulares praticadas pelo exército israelita.
"Há quatro meses, na última grande invasão, como o hospital já estava cheio, puseram-se cadáveres ali, nos frigoríficos de guardar os vegetais", aponta Ahmed.
Chegamos às últimas habitações palestinianas. Do lado de lá, os telhados de telha das casinhas brancas dos colonos, com os seus jardins, as suas palmeiras na praia, os seus guardiões profissionais.
Na véspera, tínhamos estado lá, a olhar para aqui [PÚBLICO, 18/11/04]. Agora estamos aqui a olhar para lá.
Aqui não há telhados de telha, e muitos tectos são inacabados, com vigas de ferro espetadas, para o próximo irmão (primo, tio, cunhado...) fazer mais um andar. Não há casinhas brancas, o cimento fica por pintar, pardo, desolador. Não há jardins, quando muito pequenas hortas. Nem praia. As palmeiras crescem quando crescem, entre lama, lixo e ruínas. Os guardiões são amadores.
E sobrevive-se.
Na última casa, a de Salma, crianças de todos os tamanhos vêm receber-nos à porta. O chefe de família é Ziad, 39 anos, filho de Salma. Faz-nos entrar para a garagem, onde a família está refugiada em volta de um fogareiro com brasas. Ao todo, contando com mais três irmãos de Ziad e respectiva prole, a família são 36 pessoas.
Ziad tem um ar tão jovial e sorridente como as crianças e os adolescentes. Até Fevereiro, viveram das estufas, nas traseiras da casa. "Temos um terreno que foi destruído pelos israelitas. Os tanques e tractores chegaram e começaram a demolir estufas. Tinha 16, eles demoliram metade." Aconteceu durante a noite. "Começámos a ouvir tiroteio sem saber de onde vinha, e viemos para aqui." Para a garagem. "Quando há qualquer operação, é o mais seguro, os tiros concentram-se nos andares de cima." O que não quer dizer que não atinjam a garagem. Ziad aponta as marcas de balas no portão de ferro.
Entretanto o velho pai, Hassan, marido de Salma, todo de branco (túnica, lenço, barbas) vem juntar-se à roda do calor. Não tem a certeza de ter 70 ou 72 anos. "Nasci em Ramla e em 1948 fugi para Gaza. Quando dois ou três judeus foram mortos, os israelitas começaram a atirar contra os civis. Para fugir, andámos três dias em camelos, burros, camiões... Era toda a aldeia. Em Gaza, vivemos em tendas durante um ano, até a ONU começar a construir casas."
O terreno das traseiras é do pai Hassan desde 1965, e a casa foi construída em 1988.
Apanhando o fio da conversa anterior, é o ancião que rejeita a hipótese de os tiros que antecederam a destruição das estufas terem começado do lado palestiniano. "Não deixamos ninguém vir para aqui atirar, nem é seguro para os militantes."
Lá fora continua a chover torrencialmente. Passa uma galinha, debicando pela garagem.
Quanto rende uma estufa? "Três mil dólares por ano", diz Ziad. "Antes da Intifada [de 2000] dava perfeitamente para viver, vivíamos muito bem. Para mim, como agricultor, segurança e paz é o melhor." Não teve qualquer participação na Intifada? "Não. Nem tenho arma nenhuma. Deus nos protegerá."
Que é uma família de fé, vê-se na parede. Uma parte foi pintada de branco para poderem sobressair as cores de um "graffito" saudando os que já cumpriram a peregrinação a Meca: "Bem-vindos os que fizeram a Hadj." Os "hadji" são Salma, um dos filhos e a nora.
Hassan lembra-se bem do tempo em que os primeiros colonos começaram a chegar a Gaza. "Aí em 1970, 1972. Vieram com tendas." Ziad não tem má memória dessa chegada. "Costumavam vir aqui às compras. Não lhes fazíamos mal, não nos faziam mal. Mas com a Intifada não há segurança nem para eles nem para nós. Sou contra atirar mísseis e disparar, é uma derrota para ambos os lados."
Os adolescentes trazem um tabuleiro com chá e biscoitos recheados de tâmara, como em todas as casas de Rafah onde entrámos. Impossível de demolir, a hospitalidade palestiniana. E as brasas continuam calorosas.
Desactivadas as estufas, a família passou a cultivar a terra. "Mas agora fazemos uma colheita por ano, quando antes eram duas ou três. E não me sinto seguro quando estou a plantar. Levo comigo o meu pai e as crianças, porque sei que assim eles não vão atirar. Mas a semana passada, estava lá com as crianças e vimos um soldado disparar dezenas de balas, não estava a alvejar ninguém, era só por disparar."
Ziad começa a descrever os buracos no andar de cima. É onde estão as mulheres, neste momento, para não aparecerem junto de um homem estranho (Ahmed, o guia). Ziad faz uma excepção e também convida Ahmed a subir, para a conversa ser possível.
As mulheres acolhem-nos alegremente, falando todas ao mesmo tempo, mostrando todos os quartos, todos os buracos. No chão da sala interior não está só a esteira de Salma. Há pelo menos meia dúzia a dormir ali.
Levam-nos à varanda, de onde se vêem, primeiro, as estufas desmanteladas, depois, a terra de ninguém, e finalmente as casas dos colonatos, com o seu aparato de segurança.
Parou de chover.
Como o céu está a descobrir rapidamente, as ruas de Rafah enchem-se com milhares de crianças, entre as poças e as ruínas.
Block O. Ahmed chama-lhe "a zona pior". Pior quer dizer mais demolida. Ainda mais. Pilhas e pilhas de entulho. Casas reduzidas a escombros umas atrás das outras, rapazes a trabalharem com pás, uma escavadora. São demolições frescas.
Homens velhos sentam-se à volta de fogos acesos nos patamares, aquecendo as mãos. A luz é tão bela como sempre depois da chuva, e ao fundo vêem-se dunas e mar. À esquerda, o Egipto. À direita, colonatos.
Rua após rua, não conseguimos dar com uma casa incólume. Há prédios crivados por balas como queijos suíços. Fachadas arrancadas de alto a baixo. Uma oliveira bebé entre os destroços de uma casa. Mais uma parede esburacada, com esta frase em inglês: "Rachel veio a Rafah para parar os tanques mas o 'bulldozer' matou-a e nós lembramo-la para sempre como nossa irmã."
Na lógica israelita, as demolições têm dois objectivos. O primeiro é imediato: anular ou castigar "focos de resistência" mais próximos das fronteiras. O segundo é psicológico: desgastar a população em geral, procurando dissuadi-la de apoiar "os focos de resistência".
Na prática, isto traduz-se numa guerra diária. Em Rafah, todos os dias há gente que fica sem casa, gente ferida, gente chorando mortos.
Números da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in The Near East), a agência da ONU que trabalha incansavelmente com os refugiados palestinianos desde 1950: nesta Intifada já morreram 1729 pessoas em Gaza (dos quais 378 eram crianças). Só em 2004 (o pior ano de todos), 1304 casas foram destruídas (12.350 pessoas desalojadas). Em Rafah, o ritmo das demolições atingiu as 77 por mês. Mais de duas por dia. As demolições danificam as redes de água, esgotos e electricidades, o que significa que por cada família sem casa dezenas de outras ficam afectadas.
No total de 2500 casas destruídas e 3000 danificadas em Gaza desde o início da segunda Intifada, dois terços foram em Rafah. A UNRWA fez as contas: 10 por cento da população desta cidade-campo de refugiados viu a sua casa destruída, outros 10 por cento tem a casa danificada.
O que leva Peter Hansen, o comissário-geral da UNRWA, a fazer repetidamente declarações como esta: "Ouvimos de todos os lados que há finalmente uma oportunidade para a mudança nesta terra desgastada. Mas o que vejo no terreno é mais morte e destruição. Israel tem que garantir a segurança dos seus cidadãos, mas incursões como estas dificilmente conduzirão a um renovamento do processo de paz." Um desabafo no dia em que a UNRWA abriu uma das suas escolas em Gaza a mais 127 famílias desalojadas (600 pessoas), enquanto novos abrigos não eram construídos.
Em 2005, o orçamento da UNRWA para Gaza é de 137 milhões de dólares, o que inclui reconstrução, educação, saúde, alimentação, criação de postos de trabalho e apoio social. A reconstrução representa quase metade do total.
Junto à fronteira com o Egipto, onde agora chegamos, a maior parte das construções já foi "aplainada" pelos "bulldozers". Um lamaçal imenso, ladeado por umas poucas de casas.
Mesmo ao pé do muro, estão dezenas e dezenas de pessoas e um tanque de bombar água. Há gritos, braços no ar, olhos vermelhos. Um punhado de homens manda-nos afastar. Ahmed não consegue arrancar-lhes mais do que algumas palavras. "Cinco rapazes acabaram de morrer. Estavam a escavar um túnel para o Egipto e por causa da chuva houve um desmoronamento. Nem os egípcios nem os israelitas estão a deixar procurar os corpos."
Salem não mora longe daqui. A sua família foi uma das divididas ao meio em 1967. Entramos para um pátio de terra tão encharcada que os pés se afundam ao caminhar. Há um galo a cantar e um telheiro de zinco com colchões lá dentro para as crianças. Cheira a "fiqs", uma planta parecida com a hortelã, com as folhas mais compridas e estreitas. Salem, 43 anos, homem muito moreno, de pequeno bigode, arranca um molho para nos oferecer, enquanto a água ferve para o chá.
Traz cadeiras cá para fora, senta-se com a filha mais velha a pendurar-se-lhe nos joelhos.
"A minha família está aqui há 50 anos. Tínhamos uma casa no Sinai e outra aqui. Somos 12 irmãos. Em 1967, estavam sete aqui e cinco lá." Agora esses cinco irmãos estão no Cairo, noutro mundo. "Ninguém nos obrigou, mas nós os sete achámos que este era o nosso país."
Eram filhos de mães diferentes, porque o pai de Salem tinha duas mulheres. "Antes da divisão, era uma só terra. E até ao princípio da Intifada, pude visitá-los. Mas desde então é muito difícil viajar, demora tempo, custa dinheiro, nem sempre a fronteira com o Egipto está aberta..."
Chega o chá fumegante, chegam os biscoitos - numa casa onde a mulher (como a maior parte das palestinianas) está em casa e o homem está desempregado. Desde o início da Intifada que Salem não tem trabalho. "Vivi na Arábia Saudita durante 17 anos, era agricultor. Voltei mesmo antes da Intifada." Tinha umas poupanças, que acabaram rapidamente. De que vivem? Salem sorri, aponta para o céu. "Das rações dos refugiados... De trabalhos de três meses que eles arranjam."
Eles, a UNRWA. São as Nações Unidas que dão de comer, asseguram escolas, cuidados de saúde, trabalho temporário à maioria da população. Na Faixa de Gaza (números de 2004), a UNRWA tem 177 escolas preparatórias e secundárias (5786 professores, 192.105 alunos - quase metade, do sexo feminino); 17 serviços de saúde (2.956.916 pacientes atendidos por ano); distribuem rações a 132 mil famílias (farinha, arroz, açúcar, azeite, leite em pó e lentilhas). Cada núcleo familiar tem em média seis pessoas. Façam-se as contas. A Faixa de Gaza tem cerca de um milhão e meio de habitantes - mais de metade recebe rações da ONU. Em Rafah, onde os recursos são menores, a percentagem sobe. Uma população a sobreviver de ajuda a refugiados há mais de meio século, continuamente.
"É uma vida de caos", diz Salem. "Não há segurança, não há regras. Queremos oportunidades de trabalho fixo, não quero rações, não quero cupões. Arrependo-me de ter voltado da Arábia Saudita. Lá, se não temos dinheiro, trabalhamos. Aqui, se não temos dinheiro, morremos."
Uma das tendas que vimos no meio da lama, durante o temporal, está no lugar do quarto onde antes dormia o velho pai de Subahi.
Agora que clareou, a família está toda cá fora. Subahi, 42 anos, não é militante de nenhum partido. Trabalha para a UNRWA como enfermeiro. Tem nove filhos e os dois pais idosos e doentes a seu cargo.
Alguns dos meninos que nos cercam estão descalços. Há roupa a secar cá fora. A tenda está encharcada, rota e suja de lama. Ao lado, o que resta da casa. Subahi faz-nos entrar.
Apresenta-nos o pai, de 95 anos, encolhido numa enxerga, com dores. "Tem uma fractura na anca." Apresenta-nos a mãe, que está a chorar, pedindo o seu remédio. "Tem um problema de coração." Um dos netos vai buscar-lhe o remédio, Subahi ajuda-a a encostar-se num dos colchões no chão da sala. As crianças sentam-se, muito compostas a toda a volta. É uma sala desolada, e Subahi parece exausto.
"Foi a 19 de Maio", começa ele a contar. "Eu estava a preparar-me para ir trabalhar, na equipa de emergência, quando ouvimos dizer que havia tanques a entrar. Vinham demolir casas. Muita gente fugiu, mas para mim não é fácil fugir, com o meu pai e a minha mãe assim, e as crianças. Havia helicópteros Apache a sobrevoar a casa. Viemos todos cá para baixo."
Ao todo, eram 12, aqui. Faltava o pai. "Ouvíamos os tanques, o chão a tremer, os tractores. Não havia electricidade nem telefone. E o pai estava no quarto onde agora está a tenda, porque mal se consegue mexer. As crianças choravam e gritavam, as paredes abanavam, ouvimos paredes a cair até às seis da manhã."
Subahi fala um pouco de inglês, e é em inglês que está a contar isto, com a mão na cabeça de um dos filhos, muito quieto. "De vez em quando ouvíamos tiros. O pai foi para o quarto da mãe, mas a mãe já não estava lá, estava aqui connosco. E depois começou a bater a esta porta." Que agora dá para a rua. "Então abri a porta e vi que uma das paredes do quarto dele tinha sido destruída com ele lá."
De manhã, vieram os "bulldozers". "Começaram a demolir aquela parte, que tinha dois quartos e uma cozinha. Saí com as crianças e a minha mulher a gritar aos soldados, porque se preparavam para demolir o quarto que pega a esta sala."
O filho adormeceu no colo de Subahi, a ouvir o pai falar. Os outros continuam muito atentos. Como enfermeiro, Subahi ganha 600 dólares por mês. Tem trabalho, nisso é afortunado. E tem meia casa demolida. "Faltam bens essenciais, comida, infraestruturas, protecção, roupas. Não há segurança, vivemos na fronteira. A qualquer hora que querem, vêm demolir casas e atirar sobre as pessoas. As demolições são para criar desconfiança entre os vizinhos. Destroem umas casas, não destroem outras..."
Cá fora, o sol brilha nos reflexos das poças, e as crianças entretêm-se a trepar as pilhas de entulho, as janelas carcomidas, os restos de casas. Algumas lutam com metralhadoras de brincar, outras apenas com paus. Rapazes de rosto duro e mãos nos bolsos descem uma montanha de destroços. Passam raparigas cobertas de negro, olhando ligeiramente para trás. Bicicletas a serpentear, o grito de dois homens a incitar o burro que não anda, um carro atolado. Cactos a nascer do lixo. Palmeiras a nascer do lixo. Um menino de joelhos, à beira de um charco, a olhar lá para dentro.
O céu muda de azul para violeta, puríssimo. As nuvens afastam-se, velozes. Tudo reluz, entre ruínas.
SÓ VENDO,SE ACREDITA!!
Rafah A Última Fronteira da Palestina Domingo, 02 de Janeiro de 2005
%Alexandra Lucas Coelho
Como no seu quarto entravam muitas balas, a velha Salma - nascida no tempo em que israelitas e palestinianos eram dois povos sem Estado - foi dormir para a sala interior, a mais afastada da rua.
Mas não adiantou muito. "Até a dormir passam balas sobre a nossa cabeça", diz ela, passando a mão sobre a cabeça, e esticando-a depois para uma das paredes da sala interior: "Está a ver o buraco?"
O buraco tem o tamanho de uma bola de ténis e na parede em frente há outro buraco igual que atravessa a parede para o quarto seguinte que na parede em frente tem outro buraco igual. Foi por aí que a bala entrou, à altura do peito de um adulto, sem que portanto três paredes a detivessem. Calibre pesado.
Em todas as divisões da casa de Salma há buracos de balas, grandes e pequenos. As fachadas exteriores são típicas de Rafah, cimento em bruto com centenas de furinhos de metralhadora.
A casa de Salma é a última antes da fronteira com os colonatos israelitas. Da varanda (onde não vai), no quarto (onde não dorme), ela vê o mar ao fundo. O mar é dos colonos.
Nem o Mediterrâneo sobrou a Rafah, que fica no fundo da Faixa de Gaza, no fundo da Palestina, no fundo de todas as estatísticas (emprego, educação, saúde, habitação).
Rafah é o fim, o beco sem saída, a última fronteira. Cento e cinquenta mil palestinianos (um terço dos quais crianças) cercados de arame farpado por todos os lados menos um, a estrada que vai para o Norte da Faixa de Gaza.
A Sul está o Egipto, em frente os colonatos, atrás Israel. E entre Rafah e o Egipto, entre Rafah e os colonatos, entre Rafah e Israel, é terra devastada, sem casas, sem árvores, cortesia dos "bulldozers" israelitas. Fosso, zona-tampão, "no man's land". Em solo assim raso não se ocultam ameaças à segurança do Estado hebraico.
A anciã Salma - que tem o cabelo branco e o lenço branco das anciãs palestinianas, e as rugas que uma portuguesa mais velha que ela não teria - tinha quatro anos quando na sua terra um dos povos sem Estado ficou para trás. Era o dela. Foi em 1948.
O êxodo para a estreitíssima Faixa de Gaza (então sob domínio egípcio) começou aí, quando centenas de milhares de palestininos foram forçados a abandonar as casas, tornando-se refugiados na sua terra. Em 1967, Israel ocupou Gaza, e Rafah foi partida em duas, com metade a ficar do lado egípcio. Continua a haver famílias divididas em Rafah, mas a terra de ninguém que hoje existe na fronteira já não permite o cenário dos primeiros anos de ocupação, quando os familiares matavam saudades através do arame farpado.
Na próximo domingo, Rafah vai dar a sua contribuição para eleger o primeiro Presidente da era pós-Arafat. Resta saber como, neste cerco contínuo.
Dizer que da Cidade de Gaza a Rafah (ou seja, de uma ponta a outra da Faixa) são cerca de 40 quilómetros, não quer dizer nada. Nos territórios ocupados, as distâncias contam-se em horas - variáveis.
Por exemplo, nesta quinta-feira de manhã cedo, 18 de Novembro, esses 40 quilómetros para Rafah demoraram uma hora e meia - nada mau.
Ao fim da tarde, os mesmos 40 quilómetros de volta estenderam-se por quatro horas e meia, noite dentro - poderia ser pior (toda a noite).
O eixo desta variação é o "checkpoint" central da Faixa de Gaza. Fica junto ao cruzamento mais crítico: aquele onde a estrada dos judeus (que vêm de Israel e vão para os colonatos de Gush Katif) sobe em viaduto para passar por cima da estrada dos palestinianos (que circulam na vertical, entre Norte e Sul).
Altamente patrulhado pelas tropas israelitas, este "checkpoint", nos seus momentos maus, significa filas intermináveis (desde os velhos táxis às ambulâncias, passando por toda a espécie de veículos pessoais e comerciais), completamente paralisadas durante horas. Um pesadelo para quem tem de fazer a viagem diária ou regularmente, sobretudo em dias pouco amenos. No Verão sufoca, no Inverno transborda.
Esta quinta-feira transborda. Choveu de noite, hesitou de madrugada e às nove da manhã cai uma água torrencial na lenta travessia até Rafah. Não se vê a estrada, só vagas cor de barro a subir. Os carros vão meio submersos, alguns atolam-se. Passa lixo a boiar.
Vencido o "checkpoint", segue-se Khan Yunis, a outra grande cidade-campo de refugiados no Sul da Faixa. Há um cheiro putrefacto, a esgoto.
E enfim Rafah, numa manhã diluviana.
A água vai pelas ruas, caudalosa e suja. Um bando de rapazes corre para se refugiar, de chinelas e calças enroladas até aos joelhos. Há velhos encostadas a telheiros e beirais, carros abandonados. Num mural às cores, um tigre, um macaco, uma zebra e uma girafa têm as patas sujas de lama.
"Era o Zoo, agora está vazio", explica Ahmed, o nosso guia. "Há quatro meses, quando os israelitas cercaram Rafah, cortaram a água e a electricidade e os tanques esmagaram alguns animais. Houve uns roubados, outros fugiram. Seis tigres foram vistos junto à fronteira com o Egipto."
Neste cenário biblíco, um pensamento para o destino dos seis tigres. Terão sido abatidos? Confundidos na noite com militantes do Hamas? Escapado para o Sinai?
As ruas com cada vez mais casas demolidas sucedem-se à medida que nos aproximamos da zona de fronteiras - Egipto, de um lado, colonatos do outro.
Prédios pontilhados com buracos de balas, quarteirões inteiros arrasados. Uma parede de pé, com um cobertor pendurado, a pingar. Um quarto de pé, sem tecto, sem porta, sem casa. Tendas na lama. Gente debaixo de placas de zinco, de plásticos, à espera que o temporal passe. Jorros de água saindo de tubos, de canos rotos. Uma bicicleta torta mas ágil, zut, zut, zut, a atravessar um baldio pantanoso.
Já se vislumbram as torres de vigia dos colonatos, do outro lado do arame farpado. É a zona das últimas casas de Rafah. Vêm-se muitas estufas. Mas ao contrário das estufas dos colonatos (reluzentes, geométricas, cuidadas), nestas há ferro à vista e plásticos arrancados. Vítimas, também, das demolições regulares praticadas pelo exército israelita.
"Há quatro meses, na última grande invasão, como o hospital já estava cheio, puseram-se cadáveres ali, nos frigoríficos de guardar os vegetais", aponta Ahmed.
Chegamos às últimas habitações palestinianas. Do lado de lá, os telhados de telha das casinhas brancas dos colonos, com os seus jardins, as suas palmeiras na praia, os seus guardiões profissionais.
Na véspera, tínhamos estado lá, a olhar para aqui [PÚBLICO, 18/11/04]. Agora estamos aqui a olhar para lá.
Aqui não há telhados de telha, e muitos tectos são inacabados, com vigas de ferro espetadas, para o próximo irmão (primo, tio, cunhado...) fazer mais um andar. Não há casinhas brancas, o cimento fica por pintar, pardo, desolador. Não há jardins, quando muito pequenas hortas. Nem praia. As palmeiras crescem quando crescem, entre lama, lixo e ruínas. Os guardiões são amadores.
E sobrevive-se.
Na última casa, a de Salma, crianças de todos os tamanhos vêm receber-nos à porta. O chefe de família é Ziad, 39 anos, filho de Salma. Faz-nos entrar para a garagem, onde a família está refugiada em volta de um fogareiro com brasas. Ao todo, contando com mais três irmãos de Ziad e respectiva prole, a família são 36 pessoas.
Ziad tem um ar tão jovial e sorridente como as crianças e os adolescentes. Até Fevereiro, viveram das estufas, nas traseiras da casa. "Temos um terreno que foi destruído pelos israelitas. Os tanques e tractores chegaram e começaram a demolir estufas. Tinha 16, eles demoliram metade." Aconteceu durante a noite. "Começámos a ouvir tiroteio sem saber de onde vinha, e viemos para aqui." Para a garagem. "Quando há qualquer operação, é o mais seguro, os tiros concentram-se nos andares de cima." O que não quer dizer que não atinjam a garagem. Ziad aponta as marcas de balas no portão de ferro.
Entretanto o velho pai, Hassan, marido de Salma, todo de branco (túnica, lenço, barbas) vem juntar-se à roda do calor. Não tem a certeza de ter 70 ou 72 anos. "Nasci em Ramla e em 1948 fugi para Gaza. Quando dois ou três judeus foram mortos, os israelitas começaram a atirar contra os civis. Para fugir, andámos três dias em camelos, burros, camiões... Era toda a aldeia. Em Gaza, vivemos em tendas durante um ano, até a ONU começar a construir casas."
O terreno das traseiras é do pai Hassan desde 1965, e a casa foi construída em 1988.
Apanhando o fio da conversa anterior, é o ancião que rejeita a hipótese de os tiros que antecederam a destruição das estufas terem começado do lado palestiniano. "Não deixamos ninguém vir para aqui atirar, nem é seguro para os militantes."
Lá fora continua a chover torrencialmente. Passa uma galinha, debicando pela garagem.
Quanto rende uma estufa? "Três mil dólares por ano", diz Ziad. "Antes da Intifada [de 2000] dava perfeitamente para viver, vivíamos muito bem. Para mim, como agricultor, segurança e paz é o melhor." Não teve qualquer participação na Intifada? "Não. Nem tenho arma nenhuma. Deus nos protegerá."
Que é uma família de fé, vê-se na parede. Uma parte foi pintada de branco para poderem sobressair as cores de um "graffito" saudando os que já cumpriram a peregrinação a Meca: "Bem-vindos os que fizeram a Hadj." Os "hadji" são Salma, um dos filhos e a nora.
Hassan lembra-se bem do tempo em que os primeiros colonos começaram a chegar a Gaza. "Aí em 1970, 1972. Vieram com tendas." Ziad não tem má memória dessa chegada. "Costumavam vir aqui às compras. Não lhes fazíamos mal, não nos faziam mal. Mas com a Intifada não há segurança nem para eles nem para nós. Sou contra atirar mísseis e disparar, é uma derrota para ambos os lados."
Os adolescentes trazem um tabuleiro com chá e biscoitos recheados de tâmara, como em todas as casas de Rafah onde entrámos. Impossível de demolir, a hospitalidade palestiniana. E as brasas continuam calorosas.
Desactivadas as estufas, a família passou a cultivar a terra. "Mas agora fazemos uma colheita por ano, quando antes eram duas ou três. E não me sinto seguro quando estou a plantar. Levo comigo o meu pai e as crianças, porque sei que assim eles não vão atirar. Mas a semana passada, estava lá com as crianças e vimos um soldado disparar dezenas de balas, não estava a alvejar ninguém, era só por disparar."
Ziad começa a descrever os buracos no andar de cima. É onde estão as mulheres, neste momento, para não aparecerem junto de um homem estranho (Ahmed, o guia). Ziad faz uma excepção e também convida Ahmed a subir, para a conversa ser possível.
As mulheres acolhem-nos alegremente, falando todas ao mesmo tempo, mostrando todos os quartos, todos os buracos. No chão da sala interior não está só a esteira de Salma. Há pelo menos meia dúzia a dormir ali.
Levam-nos à varanda, de onde se vêem, primeiro, as estufas desmanteladas, depois, a terra de ninguém, e finalmente as casas dos colonatos, com o seu aparato de segurança.
Parou de chover.
Como o céu está a descobrir rapidamente, as ruas de Rafah enchem-se com milhares de crianças, entre as poças e as ruínas.
Block O. Ahmed chama-lhe "a zona pior". Pior quer dizer mais demolida. Ainda mais. Pilhas e pilhas de entulho. Casas reduzidas a escombros umas atrás das outras, rapazes a trabalharem com pás, uma escavadora. São demolições frescas.
Homens velhos sentam-se à volta de fogos acesos nos patamares, aquecendo as mãos. A luz é tão bela como sempre depois da chuva, e ao fundo vêem-se dunas e mar. À esquerda, o Egipto. À direita, colonatos.
Rua após rua, não conseguimos dar com uma casa incólume. Há prédios crivados por balas como queijos suíços. Fachadas arrancadas de alto a baixo. Uma oliveira bebé entre os destroços de uma casa. Mais uma parede esburacada, com esta frase em inglês: "Rachel veio a Rafah para parar os tanques mas o 'bulldozer' matou-a e nós lembramo-la para sempre como nossa irmã."
Na lógica israelita, as demolições têm dois objectivos. O primeiro é imediato: anular ou castigar "focos de resistência" mais próximos das fronteiras. O segundo é psicológico: desgastar a população em geral, procurando dissuadi-la de apoiar "os focos de resistência".
Na prática, isto traduz-se numa guerra diária. Em Rafah, todos os dias há gente que fica sem casa, gente ferida, gente chorando mortos.
Números da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in The Near East), a agência da ONU que trabalha incansavelmente com os refugiados palestinianos desde 1950: nesta Intifada já morreram 1729 pessoas em Gaza (dos quais 378 eram crianças). Só em 2004 (o pior ano de todos), 1304 casas foram destruídas (12.350 pessoas desalojadas). Em Rafah, o ritmo das demolições atingiu as 77 por mês. Mais de duas por dia. As demolições danificam as redes de água, esgotos e electricidades, o que significa que por cada família sem casa dezenas de outras ficam afectadas.
No total de 2500 casas destruídas e 3000 danificadas em Gaza desde o início da segunda Intifada, dois terços foram em Rafah. A UNRWA fez as contas: 10 por cento da população desta cidade-campo de refugiados viu a sua casa destruída, outros 10 por cento tem a casa danificada.
O que leva Peter Hansen, o comissário-geral da UNRWA, a fazer repetidamente declarações como esta: "Ouvimos de todos os lados que há finalmente uma oportunidade para a mudança nesta terra desgastada. Mas o que vejo no terreno é mais morte e destruição. Israel tem que garantir a segurança dos seus cidadãos, mas incursões como estas dificilmente conduzirão a um renovamento do processo de paz." Um desabafo no dia em que a UNRWA abriu uma das suas escolas em Gaza a mais 127 famílias desalojadas (600 pessoas), enquanto novos abrigos não eram construídos.
Em 2005, o orçamento da UNRWA para Gaza é de 137 milhões de dólares, o que inclui reconstrução, educação, saúde, alimentação, criação de postos de trabalho e apoio social. A reconstrução representa quase metade do total.
Junto à fronteira com o Egipto, onde agora chegamos, a maior parte das construções já foi "aplainada" pelos "bulldozers". Um lamaçal imenso, ladeado por umas poucas de casas.
Mesmo ao pé do muro, estão dezenas e dezenas de pessoas e um tanque de bombar água. Há gritos, braços no ar, olhos vermelhos. Um punhado de homens manda-nos afastar. Ahmed não consegue arrancar-lhes mais do que algumas palavras. "Cinco rapazes acabaram de morrer. Estavam a escavar um túnel para o Egipto e por causa da chuva houve um desmoronamento. Nem os egípcios nem os israelitas estão a deixar procurar os corpos."
Salem não mora longe daqui. A sua família foi uma das divididas ao meio em 1967. Entramos para um pátio de terra tão encharcada que os pés se afundam ao caminhar. Há um galo a cantar e um telheiro de zinco com colchões lá dentro para as crianças. Cheira a "fiqs", uma planta parecida com a hortelã, com as folhas mais compridas e estreitas. Salem, 43 anos, homem muito moreno, de pequeno bigode, arranca um molho para nos oferecer, enquanto a água ferve para o chá.
Traz cadeiras cá para fora, senta-se com a filha mais velha a pendurar-se-lhe nos joelhos.
"A minha família está aqui há 50 anos. Tínhamos uma casa no Sinai e outra aqui. Somos 12 irmãos. Em 1967, estavam sete aqui e cinco lá." Agora esses cinco irmãos estão no Cairo, noutro mundo. "Ninguém nos obrigou, mas nós os sete achámos que este era o nosso país."
Eram filhos de mães diferentes, porque o pai de Salem tinha duas mulheres. "Antes da divisão, era uma só terra. E até ao princípio da Intifada, pude visitá-los. Mas desde então é muito difícil viajar, demora tempo, custa dinheiro, nem sempre a fronteira com o Egipto está aberta..."
Chega o chá fumegante, chegam os biscoitos - numa casa onde a mulher (como a maior parte das palestinianas) está em casa e o homem está desempregado. Desde o início da Intifada que Salem não tem trabalho. "Vivi na Arábia Saudita durante 17 anos, era agricultor. Voltei mesmo antes da Intifada." Tinha umas poupanças, que acabaram rapidamente. De que vivem? Salem sorri, aponta para o céu. "Das rações dos refugiados... De trabalhos de três meses que eles arranjam."
Eles, a UNRWA. São as Nações Unidas que dão de comer, asseguram escolas, cuidados de saúde, trabalho temporário à maioria da população. Na Faixa de Gaza (números de 2004), a UNRWA tem 177 escolas preparatórias e secundárias (5786 professores, 192.105 alunos - quase metade, do sexo feminino); 17 serviços de saúde (2.956.916 pacientes atendidos por ano); distribuem rações a 132 mil famílias (farinha, arroz, açúcar, azeite, leite em pó e lentilhas). Cada núcleo familiar tem em média seis pessoas. Façam-se as contas. A Faixa de Gaza tem cerca de um milhão e meio de habitantes - mais de metade recebe rações da ONU. Em Rafah, onde os recursos são menores, a percentagem sobe. Uma população a sobreviver de ajuda a refugiados há mais de meio século, continuamente.
"É uma vida de caos", diz Salem. "Não há segurança, não há regras. Queremos oportunidades de trabalho fixo, não quero rações, não quero cupões. Arrependo-me de ter voltado da Arábia Saudita. Lá, se não temos dinheiro, trabalhamos. Aqui, se não temos dinheiro, morremos."
Uma das tendas que vimos no meio da lama, durante o temporal, está no lugar do quarto onde antes dormia o velho pai de Subahi.
Agora que clareou, a família está toda cá fora. Subahi, 42 anos, não é militante de nenhum partido. Trabalha para a UNRWA como enfermeiro. Tem nove filhos e os dois pais idosos e doentes a seu cargo.
Alguns dos meninos que nos cercam estão descalços. Há roupa a secar cá fora. A tenda está encharcada, rota e suja de lama. Ao lado, o que resta da casa. Subahi faz-nos entrar.
Apresenta-nos o pai, de 95 anos, encolhido numa enxerga, com dores. "Tem uma fractura na anca." Apresenta-nos a mãe, que está a chorar, pedindo o seu remédio. "Tem um problema de coração." Um dos netos vai buscar-lhe o remédio, Subahi ajuda-a a encostar-se num dos colchões no chão da sala. As crianças sentam-se, muito compostas a toda a volta. É uma sala desolada, e Subahi parece exausto.
"Foi a 19 de Maio", começa ele a contar. "Eu estava a preparar-me para ir trabalhar, na equipa de emergência, quando ouvimos dizer que havia tanques a entrar. Vinham demolir casas. Muita gente fugiu, mas para mim não é fácil fugir, com o meu pai e a minha mãe assim, e as crianças. Havia helicópteros Apache a sobrevoar a casa. Viemos todos cá para baixo."
Ao todo, eram 12, aqui. Faltava o pai. "Ouvíamos os tanques, o chão a tremer, os tractores. Não havia electricidade nem telefone. E o pai estava no quarto onde agora está a tenda, porque mal se consegue mexer. As crianças choravam e gritavam, as paredes abanavam, ouvimos paredes a cair até às seis da manhã."
Subahi fala um pouco de inglês, e é em inglês que está a contar isto, com a mão na cabeça de um dos filhos, muito quieto. "De vez em quando ouvíamos tiros. O pai foi para o quarto da mãe, mas a mãe já não estava lá, estava aqui connosco. E depois começou a bater a esta porta." Que agora dá para a rua. "Então abri a porta e vi que uma das paredes do quarto dele tinha sido destruída com ele lá."
De manhã, vieram os "bulldozers". "Começaram a demolir aquela parte, que tinha dois quartos e uma cozinha. Saí com as crianças e a minha mulher a gritar aos soldados, porque se preparavam para demolir o quarto que pega a esta sala."
O filho adormeceu no colo de Subahi, a ouvir o pai falar. Os outros continuam muito atentos. Como enfermeiro, Subahi ganha 600 dólares por mês. Tem trabalho, nisso é afortunado. E tem meia casa demolida. "Faltam bens essenciais, comida, infraestruturas, protecção, roupas. Não há segurança, vivemos na fronteira. A qualquer hora que querem, vêm demolir casas e atirar sobre as pessoas. As demolições são para criar desconfiança entre os vizinhos. Destroem umas casas, não destroem outras..."
Cá fora, o sol brilha nos reflexos das poças, e as crianças entretêm-se a trepar as pilhas de entulho, as janelas carcomidas, os restos de casas. Algumas lutam com metralhadoras de brincar, outras apenas com paus. Rapazes de rosto duro e mãos nos bolsos descem uma montanha de destroços. Passam raparigas cobertas de negro, olhando ligeiramente para trás. Bicicletas a serpentear, o grito de dois homens a incitar o burro que não anda, um carro atolado. Cactos a nascer do lixo. Palmeiras a nascer do lixo. Um menino de joelhos, à beira de um charco, a olhar lá para dentro.
O céu muda de azul para violeta, puríssimo. As nuvens afastam-se, velozes. Tudo reluz, entre ruínas.

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