observarformigas

POEMAS,.....PALAVRAS AVULSAS,....PENSAMENTOS INCOMPLETOS

quarta-feira, dezembro 01, 2004

SILVES

Cada vez que visito a cidade da Silves, faço uma viagem à minha infância.
Quando criança, os fins-de-semana tinham quase sempre Silves por destino, eram as visitas aos avós paternos e maternos eram as visitas quase misteriosas a casas que tinham como que parado no tempo.
Aliás essa é de certa maneira uma das características que o visitante ocasional sente ao visitar a cidade.
A casa da minha avó paterna, situada a 100 metros do portal nascente da Sé, era a casa tradicional do camponês abastado que tinha decidido fixar-se na cidade. Possuía um pátio interior à boa maneira andaluza, esse pátio era coberto por uma variedade enorme de arbustos árvores e flores, predominavam os limoeiros e as laranjeiras. A minha avó Silva, era uma mulher “de horta “. Ela geria os laranjais, sabia da rega, criava galinhas, sabia se o medronho do ano ia ser bom ou não, embora o não bebesse nunca. Era uma mulher activa, virada para o negócio de produtos hortícolas.
À frente da porta de sua casa, uma vez começou a crescer uma planta silvestre para mim totalmente desconhecida, a minha avó logo me informou não só do seu nome como do facto de que tal planta junto à porta era um sinal divino benfazejo, logo, não se devia cortar ou arrancar tal maravilha presenteada por Deus, para assinalar uma casa por si marcada.
A minha avó Silva era um prodígio de economia, lembro-me de dizer ao meu pai quando foi viver para Portimão:
-Lembra-te filho, agora que vais alugar uma casa em Portimão, não te esqueças que a renda de casa, come contigo à mesa.
Era uma mulher contida de emoções e muito pragmática.
O meu avô Gregório era o contrário de tudo isso, e tinha para além do mais, um forte horror a ser fotografado, para ele era o pior que lhe podiam fazer. No entanto, como era um aficionado da caça tinha de ter a sua foto na cédula de caçador, mas o meu avô só tirou uma, quando tinha 70 anos mantinha na cédula a velha fotografia da sua primeira cédula, tinha ele então 23 anos. O meu avô era uma pessoa doce, desde que não lhe falassem em trabalho. Gostava de ficar no pátio com os amigos contando velhas histórias de caça. No período da caça o avô desaparecia, ia para a serra onde ficava com os amigos, por vezes meses a fio. Caçavam, comiam, bebiam o medronho das respectivas produções, comparavam as suas qualidades.
Quando voltava desse longo período da caça, o avô dedicava-se à criação de aves canoras, tinha por volta de 20 gaiolas de passarada cantadora que iluminava o pátio com os seus chilreios, eram o orgulho do avô. Para que cantassem melhor o avô tinha concebido para os seus amigos de penas, uma alimentação à base de ovo de galinha cosido, era a sua arma secreta, sempre perguntava aos amigos: -Já alguma vez ouviu um rouxinol cantar desta maneira?
Quando me dava ao fim da tarde de domingo o beijo de despedida, o avô passava-me para a mão uma moeda e dizia:
-Não digas nada à avozinha, senão ela diz-me que ando a esbanjar dinheiro.
Ao fim da tarde de domingo voltava a Portimão com meus pais, tinha a sensação de ter viajado no tempo, de ter acabado de chegar de uma velha cidade que tinha um castelo como aqueles que eu via nos livros de História.

Fernando Gregório