SILVES
Cada vez que visito a cidade da Silves, faço uma viagem à minha infância.
Quando criança, os fins-de-semana tinham quase sempre Silves por destino, eram as visitas aos avós paternos e maternos eram as visitas quase misteriosas a casas que tinham como que parado no tempo.
Aliás essa é de certa maneira uma das características que o visitante ocasional sente ao visitar a cidade.
A casa da minha avó paterna, situada a 100 metros do portal nascente da Sé, era a casa tradicional do camponês abastado que tinha decidido fixar-se na cidade. Possuía um pátio interior à boa maneira andaluza, esse pátio era coberto por uma variedade enorme de arbustos árvores e flores, predominavam os limoeiros e as laranjeiras. A minha avó Silva, era uma mulher “de horta “. Ela geria os laranjais, sabia da rega, criava galinhas, sabia se o medronho do ano ia ser bom ou não, embora o não bebesse nunca. Era uma mulher activa, virada para o negócio de produtos hortícolas.
À frente da porta de sua casa, uma vez começou a crescer uma planta silvestre para mim totalmente desconhecida, a minha avó logo me informou não só do seu nome como do facto de que tal planta junto à porta era um sinal divino benfazejo, logo, não se devia cortar ou arrancar tal maravilha presenteada por Deus, para assinalar uma casa por si marcada.
A minha avó Silva era um prodígio de economia, lembro-me de dizer ao meu pai quando foi viver para Portimão:
-Lembra-te filho, agora que vais alugar uma casa em Portimão, não te esqueças que a renda de casa, come contigo à mesa.
Era uma mulher contida de emoções e muito pragmática.
O meu avô Gregório era o contrário de tudo isso, e tinha para além do mais, um forte horror a ser fotografado, para ele era o pior que lhe podiam fazer. No entanto, como era um aficionado da caça tinha de ter a sua foto na cédula de caçador, mas o meu avô só tirou uma, quando tinha 70 anos mantinha na cédula a velha fotografia da sua primeira cédula, tinha ele então 23 anos. O meu avô era uma pessoa doce, desde que não lhe falassem em trabalho. Gostava de ficar no pátio com os amigos contando velhas histórias de caça. No período da caça o avô desaparecia, ia para a serra onde ficava com os amigos, por vezes meses a fio. Caçavam, comiam, bebiam o medronho das respectivas produções, comparavam as suas qualidades.
Quando voltava desse longo período da caça, o avô dedicava-se à criação de aves canoras, tinha por volta de 20 gaiolas de passarada cantadora que iluminava o pátio com os seus chilreios, eram o orgulho do avô. Para que cantassem melhor o avô tinha concebido para os seus amigos de penas, uma alimentação à base de ovo de galinha cosido, era a sua arma secreta, sempre perguntava aos amigos: -Já alguma vez ouviu um rouxinol cantar desta maneira?
Quando me dava ao fim da tarde de domingo o beijo de despedida, o avô passava-me para a mão uma moeda e dizia:
-Não digas nada à avozinha, senão ela diz-me que ando a esbanjar dinheiro.
Ao fim da tarde de domingo voltava a Portimão com meus pais, tinha a sensação de ter viajado no tempo, de ter acabado de chegar de uma velha cidade que tinha um castelo como aqueles que eu via nos livros de História.
Fernando Gregório
Cada vez que visito a cidade da Silves, faço uma viagem à minha infância.
Quando criança, os fins-de-semana tinham quase sempre Silves por destino, eram as visitas aos avós paternos e maternos eram as visitas quase misteriosas a casas que tinham como que parado no tempo.
Aliás essa é de certa maneira uma das características que o visitante ocasional sente ao visitar a cidade.
A casa da minha avó paterna, situada a 100 metros do portal nascente da Sé, era a casa tradicional do camponês abastado que tinha decidido fixar-se na cidade. Possuía um pátio interior à boa maneira andaluza, esse pátio era coberto por uma variedade enorme de arbustos árvores e flores, predominavam os limoeiros e as laranjeiras. A minha avó Silva, era uma mulher “de horta “. Ela geria os laranjais, sabia da rega, criava galinhas, sabia se o medronho do ano ia ser bom ou não, embora o não bebesse nunca. Era uma mulher activa, virada para o negócio de produtos hortícolas.
À frente da porta de sua casa, uma vez começou a crescer uma planta silvestre para mim totalmente desconhecida, a minha avó logo me informou não só do seu nome como do facto de que tal planta junto à porta era um sinal divino benfazejo, logo, não se devia cortar ou arrancar tal maravilha presenteada por Deus, para assinalar uma casa por si marcada.
A minha avó Silva era um prodígio de economia, lembro-me de dizer ao meu pai quando foi viver para Portimão:
-Lembra-te filho, agora que vais alugar uma casa em Portimão, não te esqueças que a renda de casa, come contigo à mesa.
Era uma mulher contida de emoções e muito pragmática.
O meu avô Gregório era o contrário de tudo isso, e tinha para além do mais, um forte horror a ser fotografado, para ele era o pior que lhe podiam fazer. No entanto, como era um aficionado da caça tinha de ter a sua foto na cédula de caçador, mas o meu avô só tirou uma, quando tinha 70 anos mantinha na cédula a velha fotografia da sua primeira cédula, tinha ele então 23 anos. O meu avô era uma pessoa doce, desde que não lhe falassem em trabalho. Gostava de ficar no pátio com os amigos contando velhas histórias de caça. No período da caça o avô desaparecia, ia para a serra onde ficava com os amigos, por vezes meses a fio. Caçavam, comiam, bebiam o medronho das respectivas produções, comparavam as suas qualidades.
Quando voltava desse longo período da caça, o avô dedicava-se à criação de aves canoras, tinha por volta de 20 gaiolas de passarada cantadora que iluminava o pátio com os seus chilreios, eram o orgulho do avô. Para que cantassem melhor o avô tinha concebido para os seus amigos de penas, uma alimentação à base de ovo de galinha cosido, era a sua arma secreta, sempre perguntava aos amigos: -Já alguma vez ouviu um rouxinol cantar desta maneira?
Quando me dava ao fim da tarde de domingo o beijo de despedida, o avô passava-me para a mão uma moeda e dizia:
-Não digas nada à avozinha, senão ela diz-me que ando a esbanjar dinheiro.
Ao fim da tarde de domingo voltava a Portimão com meus pais, tinha a sensação de ter viajado no tempo, de ter acabado de chegar de uma velha cidade que tinha um castelo como aqueles que eu via nos livros de História.
Fernando Gregório

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