ramos rosa
A delicada majestade
Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas
porque não és um tu ou porque
chegas sempre em não chegares.
Subi um dia por uma escada silenciosa
e em torno era um pomar branco,
tranquila maravilha e eu senti,
eu vi, adivinhei a divindade amada,
a soberana e delicada majestade.
Que suavidade de oriente, que suave esplendor!
Era o fulgor de um sono límpido, entre olhos verdes,
entre mãos verdes.
E num repouso de oiro adormecido
era quase um rosto Antiquíssimo e inicial.
Contemplava a quietude de um imenso nenúfar
e a fragância era quase visível como um mar entreaberto.
Era um rio detido ou uma tersa nuca
ou um braço estendido que descansa
entre ribeiros primaveris ou era antes a serena felicidade
e era uma boca da terra que não cantava
que não dizia o silêncio ardente
que no peito de espuma cintilava.
António Ramos RosaACORDES, QUETZAL EDITORES1990
Um dia poderás chegar, tu que nunca chegas
porque não és um tu ou porque
chegas sempre em não chegares.
Subi um dia por uma escada silenciosa
e em torno era um pomar branco,
tranquila maravilha e eu senti,
eu vi, adivinhei a divindade amada,
a soberana e delicada majestade.
Que suavidade de oriente, que suave esplendor!
Era o fulgor de um sono límpido, entre olhos verdes,
entre mãos verdes.
E num repouso de oiro adormecido
era quase um rosto Antiquíssimo e inicial.
Contemplava a quietude de um imenso nenúfar
e a fragância era quase visível como um mar entreaberto.
Era um rio detido ou uma tersa nuca
ou um braço estendido que descansa
entre ribeiros primaveris ou era antes a serena felicidade
e era uma boca da terra que não cantava
que não dizia o silêncio ardente
que no peito de espuma cintilava.
António Ramos RosaACORDES, QUETZAL EDITORES1990

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